segunda-feira, 16 de abril de 2012

A Evidência da Tradição Popular

Excelente texto sobre a Tradição Popular, copiado com permissão do maravilhoso blog "Saindo da Bruma" de Renata Gueiros a quem agradeço a permissão para repostar aqui o texto que ela traduziu. Boa leitura!

ALEXEI KONDRATIEV'S LOREKEEPERS COURSE 1.0 
Faixa Três - Seção Cinco - A 

Quando, por um período que se estendeu dos séculos 4º ao 7º, as comunidades célticas adotaram o cristianismo como sua religião oficial, claro que muitos aspectos de suas práticas religiosas mudaram radicalmente, mas outros não. As áreas da religião que tinham relação a temas “políticos” -- por exemplo, o culto de divindades que protegiam a nação e seus líderes aristocráticos -- passaram quase completamente para o controle cristão: templos pré-cristãos foram substituídos por igrejas, roteiros de rituais nativos foram substituídos pela liturgia cristã, as divindades invocadas foram substituídas por figuras bíblicas e santos. Contudo, na área da prática religiosa que se referia ao ciclo agrícola, à contínua relação entre humanos e a terra na qual viviam o cristianismo não teve muito a contribuir, e as práticas nativas continuaram sob um fino verniz de imagens cristãs. Tais práticas sobreviveram para o período moderno: enquanto elas certamente mudaram desde os tempos pré-cristãos, tendo se adaptado para a evolução de circunstâncias e emprestado elementos de muitas outras tradições, elas podem ainda nos dar alguma informação preciosa sobre a crença e ritual pré-cristãos -- especialmente uma vez que a terceira função, o aspecto da religião baseado na terra não é tão bem documentado a partir de fontes históricas e arqueológicas. 

O Ciclo da Terra 

Na Seção Um apresentamos os grandes festivais dos quartos (_cethardae_) que são as datas mais importantes do calendário ritual céltico. A estrutura básica do ano ritual já deve, portanto, ser familiar para você. Rituais específicos variam um pouco de um lugar para o outro, mas eles possuem características em comum. Entre os padrões salientes estão: 

-- Um período de descanso, geralmente começando em Novembro, quando o trabalho agrícola é um tabu. Este é um período consagrado aos ancestrais, quando os mortos são especificamente honrados, mas também quando as tradições da comunidade -- tanto históricas quanto mitológicas -- são re-processadas, com frequência através da contação de histórias em um contexto ritual. 

-- A chegada da primavera (ao longo de um período que cobre Fevereiro e Março) é celebrada com uma variedade de símbolos solares, os quais visam despertar e acelerar o poder de crescimento na terra. Isso frequentemente envolve uma ligação direta entre alimentos e o poder do sol: bannocks ou panquecas amarelas de formato circular -- alusões ao sol, mas feitos de produtos de grãos -- aparecem no ritual quando são movidos no sentido do sol, sugerindo crescimento da comida mesmo quando o sol torna-se mais forte com o prolongamento dos dias. Rituais similares envolvem produtos do leite, de forma que as duas fontes principais da nutrição para a comunidade estão representadas na magia da fertilidade. As ferramentas usadas para o trabalho agrícola são reconsagradas neste momento, frequentemente com um foco especial no fogo da lareira ou fogo da forja. 

-- Quando as colheitas em crescimento começam a aparecer sobre a superfície do chão, um ritual do período do verão (estendendo-se do início de Maio ao longo do meio do verão) concentra-se na imagística sexual, procriativa (especialmente flores). O fogo também é enfatizado como o agente acelerador: ferretes dos fogos rituais são trazidos aos campos, ou as cinzas são espalhadas sobre as colheitas. 

-- Quando as culturas estão maduras, a Colheita começa. Este é um período de intensa ansiedade, visto que a retirada das colheitas do corpo da Terra é percebida como um tipo de violação, que requer um protocolo ritual elaborado e cuidadoso de negociação a fim de evadir a retaliação pelos espíritos da Terra. Em particular, é tomado um cuidado especial com a forma como ambos o primeiro e últimos frutos da colheita são tratados: as pessoas envolvidas são frequentemente dadas um status quase sacerdotal para duração do ciclo do ritual. Imagens de água são predominantes nessa estação, como o poder elemental das águas esfria a terra e põe um fim ao crescimento das colheitas, enquanto cria um ambiente nutritivo para as sementes do próximo ano. A continuidade entre as colheitas deste ano e as sementes do ano seguinte é frequentemente sublinhada no ritual sazonal. 

Contação de Histórias 

Muitos dos rituais sazonais estão explicados por histórias mitológicas. Como notado acima, a estação do inverno é tradicionalmente (apesar de não exclusivamente) reservada para a contação de tais histórias, que nas comunidades gaélicas é a preservação do _seanchai_ (Gaélico Escocês _seanchaidh_). O _seanchai_ ("orador da sabedoria antiga [_seanchas_]') não é apenas um contador de histórias mas um mestre do saber geral que mantém na memória as tradições importantes da comunidade. Nem todas as histórias no repertório dele/dela estarão relacionadas a mitos (algumas são puramente itens de entretenimento relacionadas as histórias folclóricas internacionais), mas as que tendem a pertencer ao gênero chamado _Fiannaiocht_ (Gaélico Escocês _Fiannaigheachd_), que reconta os feitos dos _fianna_, grupos autônomos de guerreiros mercenários que vivem em lugares selvagens e se sustentam a partir da caça e da coleta, e que, por causa de sua posição limiar na fronteira entre natureza e cultura, facilitam o movimento através dessa fronteira. Um poder desse tipo é particularmente relevante para os agricultores e outros que vivem da Terra, então a invocação dos Fianna durante o tempo em que a Terra está dormente e um novo ciclo agrícola está sendo preparado é fácil de entender. Os contos estão estruturados em torno da história de vida do herói Fionn Mac Cumhaill, mas há muitos outros personagens secundários cuja importância varia de uma comunidade para outra, e em muitas histórias o próprio Fionn não aparece. 

Outro tipo de história (às vezes explicitamente relacionado ao _Fiannaiocht_, às vezes não) que desempenha um papel mitológico na tradição exibe um padrão similar aos romances da "Busca ao Graal" da Idade Média: um herói (frequentemente o filho mais novo ou um desvantajado similarmente ou um personagem pouco promissor) empreende uma busca de cura na qual ele é ajudado por uma variedade de animais ou companhias mágicas, e na qual a cura tem lugar através do despertar ou re-potencialização de uma figura feminina. Tal jornada para o coração doador de vida da Terra é auto-explicativa no contexto do ritual sazonal. Esta história-padrão é pan-céltica (e geralmente sobrevive em áreas ex-célticas também), mas é particularmente importante nas comunidades britônicas, especialmente na Bretanha. 

Outras histórias recontam os feitos dos heróis locais ou santos, que são com frequência reflexos transparentes de divindades pré-cristãs e padrões míticos. E no mundo gaélico Santa Brígida (Irlandês _Brid_, Gaélico Escocês _Brighid_) reteve todas as características da deusa pré-cristã cujo nome ela carrega, e muitas das histórias sobre ela são diretamente relacionadas ao mito e rito sazonal. Na Bretanha _santez Nonn_ desempenhou um papel similar. 

Por Alexei Kondratiev Copyright © 2010 Todos os Direitos Reservados.

Tradução: Renata Gueiros