terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Em Belenos - Rito e Aprendizado



... Estive sozinho na montanha durante toda a tarde de um dado domingo. Até minha subida na pedra ainda não aceitava o mundo e suas justificativas para tanta dor. Porque tanta dificuldade para levar a vida? Porque tanta ansiedade e tanta ambição pelas conquistas? Porque tanta tristeza? Porque tanta solidão? Porque tanta avareza? Tantos impedimentos! Porque não aceitamos que se não deu, pelo menos fizemos o melhor? É o suficiente! Ás vezes é melhor assumir para si que não consegue ou não quer, do que fingir que se importa. Me canso às vezes, e pacientemente realmente espero que as pessoas um dia possam entender que nada disso é preciso para...

... Então escutei a montanha quando me respondeu: "Aonde vê isso? Não há aqui! Está dentro de você! Está dentro do outro
... Não aqui fora! Aqui só há o que a tua visão lhe permite ver! A beleza, a paz e a alegria de viver. O demais, é ilusão..."; Então, no eco do silêncio, uma águia cortou a minha frente e com um grito me levou para fora novamente. Me olhei sentado na montanha, cheio e cansado destas dúvidas que não estavam noutro lugar senão em meus pensamentos... Olhando de fora, percebi que aquele menino ali sentado não era eu... Me encontrei. Entendi quem sou, o céu abriu e sorriu, me fitou e chorou... Misturei minha emoção às lágrimas de chuva que caíam.

... Deitei na pedra à noitinha e percebi estar ligado à tudo... Talvez por isso sinto saudades do céu, talvez por isso às vezes choro sem motivos, estamos tão truncados a ponto de não ouvir as respostas de uma árvore, dum animal, ou do vento. Somos grotescos demais para compreendê-los... Mas mesmo assim, mesmo que pensemos não fazer parte disso ou daquilo, em silêncio percebi que não há esta possibilidade, e muito menos esta opção. Estamos realmente conectados ao que há nos arredores... Independentemente de percebê-lo.


O que há para ser feito neste mundo senão poder compartilhar os bons momentos? O que há para ser feito neste mundo senão contemplar e buscar pelo desconhecido? Cada vez que vôo, percebo que com um pouco mais de força e vontade posso ir mais alto... Me disseram mais uma vez que há o tempo necessário para isso... "Que desfrute e explore ao máximo o suco de cada gomo da laranja, só assim conhecê-la-á por inteira, entenderá o porquê do azedo, do doce e do seco.", e, Infelizmente pelos outros, o máximo que podemos fazer é gritar lá de cima como o céu fez por mim... Se der tuas mãos para ajudá-los a subir, bem provável é lhe puxarem para baixo. Paciência é a ordem... Afinal, não valerá cruzar a linha se estivermos sozinhos. Como disse certa vez uma Ursa, a compreensão vem com o tempo, não do relógio e sim de cada um.

Até onde chegaremos? Até o final? Não sei! Talvez nem exista mesmo este fim... Então penso apenas no necessário... Para conhecer a paz e a felicidade. E assim vou amando cada um de meus companheiros de uma forma diferente de qualquer outra, de uma forma que talvez possam entender por aqui, simplesmente por amar, sem esperar muito ou quase nada em troca... Pois não há outra cousa mesmo para se fazer de melhor por aqui. Bel, neste ano, me ensinou que o fogo não apenas transmuta, mas na simplicidade, Ilumina o necessário e nos concede um espacinho quente e aconchegante. Aonde? Dentro desta cabaninha velha e fria... Que chamas de “coração”, esquecida e largada neste mundão desconhecido, que conheces como “ilusão”.


...Teu fogo, Bel, desintegra-me de dentro para fora mostrando-me quem sou por baixo das camadas de terra e de folhas.
Afortunados estes belos pássaros, tateando as dimensões; Podem sentir o que apenas podemos supor e descrever... E estive contigo Madre, mesmo distante não tens me esquecido... Quando menos espero me chamas a atenção envergando tuas asas no alto do monte. Tu cantas, o mundo se cala.

Contemplar instiga a compreensão despida de razão, da curiosidade ou do desejo do saber. Insight comparável ao verso intenso cantado no pé d'ouvido, imperceptível à sensibilidade desatenta... Intuição leviana sugerindo intenções indeclaráveis para cada das dezenas de possibilidades.

E nossas perguntas? Párias questões resolvidas! Embrulhadas num papel de seda apregoado ao coração... Insolução insistente! Tocaia para vossa alma. Indesejável, todavia, permissível... Protagoniza toda espécie de ingratidão. Oh! Crença miserável! Faz do verde-cura matiz de ocre e à nova cor dá o nome "imperfeição".

Pulsa cosmo ritmando nossas vidas, faz canção de nossa estória, faz estória de nossas caídas, afinal, tudo é música... E toda música merece ser ouvida. Potente infinito contornando a consciência! Sem um ou outro seríamos apenas ralo lampejo de existência. Pensar é encontrar as peças, montar e entalhar presença.

Atraímo-nos e traímo-nos com a indelicadeza... Estorvamo-nos no princípio, impedindo-nos compreender. E a incompreensão nos reprime, comprime-nos neste amontoado de dúvidas insensíveis à pureza da essência... O resultado? O resultado é este desespero que chamas de vida... Isso que dizes tu ser viver. Que solidifica vossas mentiras, que lhe engana ser bom, verdade finita que por si não se sustenta. Não há saída se não há alternativa, não há alternativa se não queres escolher. Se nega-se à mover, estagna, mucha, seca, poliniza morbidez... Sabota um novo amanhacer.

Já vivi este conto privê, entupi-me de mim, como entupiu-se tu ao desistir de si. Esqueceste? Ama-se aquele que ama suas memórias mas mora no agora! Quem clama o ontem a favor do amanhã bifurca nas curvas da trilha onde anda, parte sem ida, retorna sem volta! Escreve "destino" com areia da praia no tabuleiro do tempo, sob o sopro incessante do vento... Triste sina que ensina, seja pelo sabor do amor ou pelo viéz azedo: Sofrimento.

Deita o silêncio, pois, levanta a calmaria, cresce em tu... Expande, transborda e irradia. Derruba a parede que ergueste e em que escreveste teu lamento! Pois, teu choro não moverá as velas, assim como, um mar de água salgada não encerrará vossa sede. Observa os segredos, aprende e ensina... Marinheiro.

Lontra Voadora

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