segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Bruxas e benzedeiras


As bruxas de Santa Catarina


Dom João V, rei de Portugal, determinou em 1747, a transferência de 4.000 portugueses, oriundos das Ilhas de Açores e Madeira para as províncias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Em 1748, começaram a chegar, na Ilha de Nossa Sra. do Desterro, atual Florianópolis, em Santa Catarina, os primeiros casais e desertores. Entre esses desertores, havia algumas mulheres que foram afastadas de Portugal acusadas de feitiçaria.

Assim sendo, os moradores da Ilha dos Açores trouxeram suas crenças, seus costumes, suas tradições e suas bruxas. 

Aqui, na Ilha de Santa Catarina, elas voltaram às suas atividades como curandeiras, parteiras e conselheiras, sendo a partir de então conhecidas como benzedeiras. E a palavra bruxa ou feiticeira foi transferida para aquelas mulheres, vivas ou mortas, que realizavam magia negra e encantamentos para o mal.

Tal mudança de definição, de bruxa para benzedeira, deu-se por conta da deturpação que a palavra bruxa ou feiticeira sofreu pela Inquisição. Ser bruxa era sinal de conexão diabólica, era ser responsável por todas as desgraças e dificuldades existentes na vida cotidiana do povo.

Relatos sobre bruxas e benzedeiras são freqüentes nos antigos vilarejos da Capital, principalmente na Lagoa da Conceição, povoado que foi fundado em 1750, com o nome de Nossa Senhora da Conceição.

Porém, a verdadeira bruxa, ou se preferir benzedeira, é aquela que tem conhecimento sobre todas as energias que nos envolvem e sabe utilizá-las para melhorar a vida física, mental e espiritual. A bruxaria, ou seja, a Antiga Religião, é uma filosofia de vida onde predomina o amor, o respeito por todas as formas de vida e onde utiliza-se as forças da natureza e da energia cósmica para efetuar curas e ritos de harmonização.

Pelo interior da ilha, principalmente nas comunidades da Lagoa da Conceição e do Ribeirão da Ilha, ainda podemos ouvir "causos" dos pescadores vítimas das bruxas, e das mães cujos filhos embruxados foram salvos pela benzedeira. Para espantar uma bruxa, a benzedeira da Ilha, junto com seus galhos de ervas, reza a seguinte oração:

"Treze raio tem o sóli, treze raio tem a lua,
Sarta diabo pró inferno questa alma não é tua.
Tosca marosca, rabo de rosca,
Vassoura na tua mão,
relho na tua bunda e aguilhão nos teus pés.
Pôr riba do silvado e pôr baixo do tehiado!
São Pedro, São Paulo e São Fontista
Por riba da casa, São João Batista.
Bruxa tatara-bruxa,
Tu não me entre nesta casa nem nesta comarca toda.
Pôr todos os santos dos santos. Amém!".


Marina Guadalupe Beims Autora do livro "Wicca e outras tradições"
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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Vida de Brigid

As lendas mais antigas dão conta que num distante dia primaveril dois sóis despontaram no horizonte para iluminar o mundo. Um deles era o velho Astro-Rei que como sempre emergiu do Leste para iniciar sua caminhada costumeira pelo céu até encontrar seu descanso no Oeste, enquanto o outro anunciava o nascimento de uma filha dos Tuatha Dé Danann.

Como fosse uma revelação do que seria o destino daquela menina no mundo e marca de sua força a casa onde nasceu ardeu até alcançar o céu numa chama de brilho imperecível nunca desfeita em pó , competindo em pé de igualdade com a luz do Sol durante o dia e até mesmo vencendo as trevas na noite. Os que presenciaram o nascimento deste bebê de mística beleza puderam relatar de que no lugar de cabelos saiam de sua cabeça um pilar de fogo perpétuo solidificado em uma massa pétrea de cor vibrante que era como uma coroa de rubis a enfeitar ainda mais a face daquela criatura de ares sobrenaturais. Ela foi chamada de Brigindo (Briga) pelos gauleses, Brigantia pelos britânicos e Brigith pelos gaélicos, sendo consagrada o seu culto pelos celtas principalmente como deusa do fogo (inspiração).

Contudo, não era apenas fogo como elemento físico que representava arquetipicamente a imagem daquela divindade na medida em que os celtas tinham uma interpretação toda peculiar a respeito dos elementos da natureza. Assim, por exemplo, encaravam o fogo como uma energia espiritual latente a todas as coisas e inerente a certos processos cognitivos do intelecto humano bem como também a alguns estados emocionais como paixão, caridade, amor e etc . Nesta perspectiva , não por outra razão Brigith como ´´deusa do fogo´´ era vista também como uma espécie de patrona das Artes e da Poesia.

Uma aliança inusitada surge

Ao final da guerra com os Fir Bolgs os Tuatha Dé Danann finalmente tinham conquistado um espaço para firmar seu reino, porém, pairando sobre suas cabeças havia tanto a ameaça dos Fomorianos de virem em socorro de seu aliados ( os Fir Bolgs ) quanto passavam por sérios problemas ligados a buscar um sucessor ao Rei Nuada que estava segundo as tradições dananianas impossibilitado em continuar como monarca daquele povo por conta de seu grave ferimento em combate que rendeu a amputação da mão.

A solução para este grave problema surgiu das mãos de Dagma, regente por tantos anos dos dananianos antes de passar o poder para o jovem guerreiro Nuada, onde o velho rei sugeriu forjar uma aliança com os Fomorianos a partir do casamento de sua filha Brigith com o guerreiro Bress ( filho do Rei Elethan ) onde seria oferecido como dote o direito dele ser o monarca dos Tuatha Dé Danann em sucessão de Nuada.

De outro lado com este casamento é certo que Dagma garantiu de certa maneira o retorno de sua família ao poder, o que não poderia ter conseguido de outro modo seja por conta de sua idade avançada quanto não ter filhos varões ao trono. Sem esquecer o não menos importante fato que Bress abdicasse ou morresse seria Dagma a assumir a posição de regente até quando seus netos crescessem.

Ao final o que era para ser uma aliança de mera conveniência política entre dois povos inimigos terminou se revelando um amor verdadeiro entre Bress e Brigith , nascendo desta união como fruto Rúadan, Brian , Iuchar e Iurbarba. Porém, nem tudo eram flores como veremos a seguir¦.

Bress revela sua verdadeira face.

Apesar de ter com Brigith quatros filhos, Bress fez questão de “expurgar” deles qualquer sinal de mácula de fraqueza por terem nascidos “mestiços” pelo fato de parte do seu sangue fomoriano ter sido “misturado” aos dos dananianos. Assim, Rúadan, Brian , Iuchar e Iurbarba foram desde cedo afastados da mãe e mesmo dos seus parentes do lado materno, sendo criados como se fossem Fomorianos.

De todos seus filhos Brigith manteve pouco contato com exceção de Rúadan que nascido fraco e franzino ficou mais tempo ao lado da mãe, desfrutando do convívio com os Tuatha Dé Danann de um modo que nunca conseguiram seus outros irmãos. Apenas na adolescência é que finalmente Rúadan finalmente passou a conviver com seus parentes paternos.

Muita embora esta tamanha hostilidade de Bress com Brigith , o fato é que ele era apaixonado por sua esposa bem como se revelou nos primeiros anos como sendo um monarca razoável dos Tuatha Dé Danann neste tempo todo que estava casado. Infelizmente com passar do tempo Bress se revelou um tirano, apenas interessado em retirar toda a riqueza de seus súditos com altos tributos cobrados em favor dos Fomorianos e nem de longe preocupado com o bem estar dos Dananianos.

Como é óbvio deduzir foi uma questão de tempo para esta situação deteriorar em direção de gerar finalmente uma guerra entre os Fomorianos e os Tuatha Dé Danann. Agora entre tantas morte ocorridas neste conflito houve apenas uma que foi lamentada tanto por Fomorianos como os Tuatha Dé Danann, a saber o falecimento de Rúadan . Contam as lendas que a deusa traduziu em prosa e verso toda sua dor pelo filho perdido, entoando um canto fúnebre em seu enterro que além de ser considerada a mais bela poesia já escrita também era de trazer lágrimas e obscurecer o coração do mais insensível entre o seres.
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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A compreensão dos xamans


O mal-entendido neoxamânico pode ser gigantesco

Agradecimentos ao administrador do blog Cronistas Indígenas, que gentilmente permitiu a publicação desse excelente texto em nosso blog. O original se encontra nesse link.
Pelo Dr. Jacques Mabit
Traduzido do francês para o português por José Pimenta**

“Xamanismo amazônico” / “estudantes ocidentais”. A justaposição destes dois termos mergulharia sem dúvida os nossos antepassados na perplexidade, mas se tornaram familiares para nós. No entanto, de acordo com um especialista, a nossa confiança tranquila esconde um equívoco perigoso. Não se atravessa ingenuamente os milênios que separam a modernidade da magia pré-histórica! O alarme é ainda mais justificado por vir de um terapeuta que não temeu pela sua reputação, saindo do caminho seguro para ir ao encontro apaixonado de “curandeiros” da selva. Amigo de Jeremy Narby ou Jan Kounen, ele vê o turismo xamânico com um olhar preocupado. Há mais de dez anos, o Dr. Jacques Mabit organiza estágios para ocidentais com xamãs da Amazônia peruana. No início, sua ação se concentrava nos viciados em drogas, para os quais a “visita “mágica” à sua interioridade. paradoxalmente, os livraria da droga. Mas, aos poucos, o “neoxamanismo” virou moda e o centro Takiwasi (O pássaro que canta) aceitou abrir suas portas a um público cada vez maior. Hoje, Jacques Mabit faz um balanço e seu discurso é mais que ambivalente. Segundo ele, muita ingenuidade, uma impaciência infantil, hábitos aconchegantes e uma longa ruptura com a natureza e o corpo selvagens e, acima de tudo, uma ignorância estúpida e generalizada da dimensão simbólica verdadeiramente vivida, associada com a hipertrofia do ego, fazem do encontro entre ocidentais e xamãs, mais frequentemente do que poderíamos pensar, um mercado de ilusões. E como o objeto do mal-entendido não é nada mais que o despertar da consciência, a ilusão pode rapidamente se transformar num labirinto assustador. A seguir, partes de um artigo do Dr. Jacques Mabit publicados no verão de 2005 na revista Synodies.


A onda xamânica

No pequeno refúgio da Alta Amazônia onde eu moro há quase vinte anos, assisto a ondas crescentes de ocidentais sedentos para entrar em contato com as práticas das medicinas tradicionais amazônicas. Como eu fui um dos iniciadores desse movimento, não posso deixar de hesitar entre a satisfação e o pavor diante desse entusiasmo para o que agora se convencionou chamar pelo nome de “xamanismo”, inadequado do ponto de vista antropológico. (...)

Assistimos atualmente a uma chegada maciça de cidadãos de países do Norte nos cantos mais isolados das florestas, das montanhas e dos desertos do Peru, e de outros lugares, para encontrar ali o “xamã” ainda “virgem” que irá conciliá-los consigo mesmo. As coisas também se complicam desde que o movimento inverso se iniciou, ou seja, com a ida de “xamãs” para Europa, sem falar de brancos que se apresentam como iniciados, capazes de substituir os mestres indígenas. (...).

Ora, o universo simbólico de uns e dos outros é totalmente distinto e é justamente essa maneira específica de apreender o vivido interior que será colocada em jogo durante as experiências xamânicas, como por exemplo com a ayahuasca. Corremos portanto um forte risco, se o nosso viajante ocidental não tiver um mínimo de conhecimento do universo simbólico de sua própria cultura (o que se tornou a regra) de confundir charlatães com grandes mestres e visões pessoais com revelações universais. E a capacidade de autoilusão é tanta que diante da expectativa colocada e dos investimentos envolvidos no processo, o interessado não se importa de ser advertido de sua inocência porque pensa ouvir do seu “mestre”, que ele agora faz parte dos “iniciados”. A questão que se coloca portanto é: um ocidental pode apreender a experiência xamânica de modo a tirar dela um beneficio real e não contribuir à degradação acelerada dessas práticas nas sociedades tradicionais?


Quando o Senhor Dupont reencontra um xamã indígena. 

Nós sabemos que somos fisicamente incapazes de suportar até mesmo uma fração da experiência real de um xamã amazônico. Mas nossas fantasias de afinidade se alimentam de outras coisas. Assim, um ocidental pensa ver no xamã um homem que fez um longo trabalho sobre ele mesmo e que venceu seus demônios interiores: uma mistura de “bom selvagem” de Rousseau e de “sábio” oriental. Mas um índio pode se tornar um especialista no uso de forças invisíveis da natureza (notadamente humana) sem ter feito qualquer trabalho sobre si, tendo essencialmente acumulado no seu corpo as armas energéticas necessárias para o combate. 

No mundo tribal, extremamente estruturado e hierarquizado, a sobrevivência do grupo tem prioridade sobre o indivíduo e a lei de talião (“olho por olho”) deve constantemente reequilibrar a relação com o outro, cujo disfuncionamento explica todos os males. Enquanto isso, o nosso fundo ocidental greco-judaico-cristão nos pede para fazer do outro um irmão e não um inimigo, o indivíduo representando a nossa maior meta.

Podemos ter que lidar com um grande feiticeiro, um homem poderoso, mas que não controla em nada seus impulsos egóticos. A maior parte dos xamãs são temidos por seus próximos por causa desse poder de inversão agressiva que é sempre possível (...). É por isso que muitos jovens recusam o aprendizado xamânico, para não se expor a “serem odiados por toda a vida” (...)

Diante deste mundo de feitiçaria extremamente ativo, vários ocidentais acreditam estarem protegidos pelo fato de “não acreditarem”. Eles ririam se um índio lhes dissesse que estariam protegidos de um vírus ou de uma bactéria por não acreditarem nisso! (...)


O ângulo cego do cérebro direito 

Da mesma forma que os ocidentais têm desenvolvido de maneira extraordinária as funções psíquicas do lado esquerdo do cérebro, os grupos étnicos da Amazônia são especialistas na utilização das funções psíquicas do lado direito do cérebro que, no nosso caso, é subutilizado. Podemos comparar a nossa ignorância sobre esse assunto à ignorância de um índio amazônico médio em física quântica ou em filosofia germânica. 

Um grande xamã pode se mostrar incapaz de expressar suas experiências em sequências lógicas. Por outro lado, quantos grandes cientistas ocidentais são inaptos para gerenciar sua vida emocional ou interpretar seus sonhos?

Os xamãs desenvolveram técnicas sofisticadas para a gestão de energias - processo de materialização-desmaterialização, de domínio do humor dos sujeitos, de indução de pensamento através dos sonhos, etc. Essas funções, que escapam à nossa formação ocidental, integram o espaço inconsciente da nossa psyché. Sua manipulação é ainda mais eficiente em nós por não sabermos de sua existência. Assim, existe uma arte xamânica de sedução altamente desenvolvida, que pode ter objetivos sexuais, mas não só, e que afeta muitos “turistas xamânicos” sem que eles percebam (...).


Alargamento da consciência ou inflação do ego? 

O mal-entendido também acontece quanto à finalidade da abordagem xamânica. O Ocidental quer compreender racionalmente para satisfazer sua inquietação e encontrar a paz, que é principalmente a de sua mente perturbada. Para um habitante da Amazônia, a angústia essencial diz respeito ao seu equilíbrio com a natureza e o mundo invisível, sua capacidade de trabalho físico para manter sua autossuficiência, sua sobrevivência. Se o seu corpo é purificado, ele sabe, então, que sua cabeça funcionará melhor, que ele terá sonhos, que os espíritos se aproximarão... Para o Ocidental, é a ausência de visão que é geradora de frustração porque é isso que ele espera: ele ignora que, para a maior parte das etnias amazônicas, tomar ayahuasca é secundário em comparação com a ingestão das preparações vegetais purgativas! Quando um índio toma ayahuasca, o xamã pergunta-lhe, sobretudo, se as plantas vomitivas tiveram efeito, porque é a purificação física que atesta o sucesso da bebida. (...).

De modo mais geral, mesmo num contexto ideal, com um xamã correto, a ausência de preparação para a entrada num universo simbólico pode levar a sérios problemas. Para o índio na sua tribo, a bagagem cultural transmitida desde a infância fornece uma compreensão das experiências xamânicas: uma cosmogonia, interpretações coletivas, lendas, mitos, histórias familiares ou clânicas que lhe possibilitam situar automaticamente o seu vivido em relação a si mesmo e ao seu universo de referência. Ao contrário, o empobrecimento simbólico da educação racional ocidental, o reducionismo do mito científico e a dessacralização das práticas culturais produzem cidadãos desprovidos de referências claras do mundo interior, assim como de qualquer dimensão transcendental. E o desaparecimento dos ritos de passagem “constrói” uma massa de adultos que não nasceram psiquicamente e permanecem trancados num mundo materno no qual as funções psíquicas masculinas são excluídas e se tornam inacessíveis. No ocidental, os processos de reificação são uma tentação permanente, objetivando o que é da ordem do simbólico. O simbolismo entre nós se esvaziou de sua substância. Ele não desempenha mais nenhuma função operante e se transformou na imagem refletida da virtualidade informática. Por exemplo, várias feministas se sentem ofendidas pelo fato de, segundo os curadores, uma mulher não poder tomar ayahuasca quando está menstruada. Elas interpretam esse fato como um vestígio machista de tribos primitivas ou então pela via de uma leitura psicanalítica em torno da questão do desejo. Procuram, portanto, transgredir essa recomendação muito importante, que diz respeito concretamente ao fato de que as emanações do sangue menstrual proíbem momentaneamente, no plano energético, as viagens interiores.


Quanto ao ego, com sua pretensão de ser todo poderoso, abraça prontamente as experiências xamânicas procurando se apropriar delas. Quantos ocidentais que tomam ayahuasca e visualizam a energia em suas mãos pensam imediatamente que são chamados para se tornar curandeiros ou que já eram sem mesmo saber? (...)

Teriam ainda outros elementos culturais para desenvolver, elementos que caracterizam o mundo tribal e que são fontes de incompreensão entre índios e ocidentais. Assim, a “sinceridade” ocidental será quase sempre percebida por um índio como uma agressão, e (por sua vez) sua impossibilidade cultural em dizer “não” será vista como uma hipocrisia por um visitante ocidental. Como fazer entender em poucas palavras que a amizade entre um homem e uma mulher não existe no contexto tribal? Uma europeia bem intencionada, que aceita amavelmente o gesto de um índio, na realidade, significa para este que está disponível sexualmente. 


As portas da reconciliação

Dizer que “cada um possui um xamã dentro de si” nos parece no melhor dos casos uma piada, ou, no pior, uma mentira. As vocações são raras e também existem poucas pessoas que têm um “Mozart ou um Modigliani dentro de si”. Enquanto são necessários anos de formação para se tornar um técnico especializado, ficamos surpreendidos quando sabemos que podemos nos tornar xamã e dominar os estados de consciência após alguns finais de semana de formação no bosque de Fonteinebleau! Muitos estágios ditos xamânicos propostos no contexto new age fazem uso, na realidade, de técnicas de relaxamento, de sonho acordado, de indução hipnótica, etc. Só têm de xamânico o nome (...).

A iniciação é um processo lento e longo que exige a integração das experiências em diversos níveis (físico, psíquico, emocional, espiritual) e no qual um ocidental não pode ignorar a sua própria cultura. Mais que uma fuga para um outro mundo, trata-se de reintegrar suas próprias raízes e de se reconciliar consigo mesmo e com seus ancestrais, o que, no nosso caso, significa se reapropriar também do fundamento cultural judaico-cristão. O desvio para uma cultura ancestral pode se provar sensato com a condição de estarmos preparados para voltar “pra casa”. Além disso, a aquisição prévia ou simultânea de uma formação que tenha uma dimensão de ajuda ou uma profissão que inclui uma dimensão terapêutica me parece essencial. A experiência xamânica deve ser preparada antes, ser conduzida dentro de um dispositivo simbólico de contenção e, por fim, ser seguida por etapas ulteriores de integração do vivido. Ela exige, portanto, um espaço específico. 

Com essas condições, o Espírito que sopra onde quer e quando quer, poderá inspirar vocações terapêuticas, que se enraízam em culturas diferentes mas que falam do Homem eterno.

Publicado na Revues Synodies “Le transpersonnel?”, verão 2005, Ed. GRETT (Groupe de Recherche en Thérapies Transpersonnelles). 
* Originalmente publicado em: http://www.inspir.be/?page_id=2792

** O ProfDr José Pimenta é antropólogo, 
professor na UnB e possui um longo histórico
 de pesquisa e vivência junto ao 
povo Ashaninka do Alto Juruá, no Acre.

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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Lenda da cobra grande (ou Boiúna)

A Lenda da Cobra grande é uma das mais conhecidas lendas do folclore amazônico que
fala de uma imensa cobra, também chamada Boiúna, que cresce de forma gigantesca e ameaçadora, abandonando a floresta e passando a habitar a parte profunda dos rios. Ao rastejar pela terra firme, os sulcos que deixa se transformam nos igarapés. Conta a lenda que a cobra-grande pode se transformar em embarcações ou outros seres. Aparece em numerosos contos indígenas. Tem sido tema para nossa música, poesia e folclore.



A Lenda

Há muito tempo, existiu em uma das tribo do Amazonas, uma mulher muito perversa que inclusive, devorava crianças. Para por fim a tantas dores causadas por ela, a tribo decidiu atirá-la no rio, pensando que ela morreria afogada e nunca mais viesse a perseguir ninguém. Porém, Anhangá, o gênio do mal, decidiu não deixá-la morrer e casou-se com ela, dando-lhe um filho. O pai transformou o menino em uma cobra, para que ele pudesse viver dentro do rio. Porém, logo a cobra começou a crescer e crescer...

O rio tornou-se pequeno para abrigá-la e os peixes iam desaparecendo devorados por ela. Durante a noite seus olhos iluminavam como dois faróis e vagavam fosforescentes por sobre os rios e as praias, espreitando a caça e os homens, para devorá-los. As tribos aterrorizadas, deram-lhe o nome de Cobra Grande.

Um dia a mãe da Cobra Grande morreu. Sua dor manifestou-se por um ódio tão mortal que de seus olhos brotavam flechas de fogo

Também se conta que em certa tribo indígena da Amazônia, uma índia, grávida da Boiúna, deu à luz a duas crianças gêmeas. Uma delas, um menino, recebeu o nome de Honorato ou Nonato, e uma menina, chamada de Maria. Mas a Índia não queria as crianças e para ficar livre dos filhos, ela jogou as duas crianças no rio. Entretanto as crianças não morreram, e conseguiram sobreviver e se criaram. Honorato não fazia nenhum mal, mas sua irmã tinha uma personalidade muito perversa. Causava sérios prejuízos aos outros animais e também às pessoas.

Eram tantas as maldades praticadas por ela que Honorato acabou por matá-la para pôr fim às suas maldades. Segundo muitas pessoas narram, Honorato em algumas noites de luar, perdia o seu encanto e adquiria a forma humana transformando-se em um belo e elegante rapaz, deixando as águas para levar uma vida normal na terra.

Para que se quebrasse o encanto de Honorato era preciso que alguém tivesse muita audácia para derramar leite na boca da enorme cobra e fazendo um ferimento na cabeça dela até sair sangue. Porém ninguém tinha coragem de enfrentar a enorme cobra. Até que um dia um soldado de Cametá (município do Pará) conseguiu libertar Honorato do terrível encanto, e ele deixou de ser cobra d'água para viver na terra como um homem e com sua família.


Histórico:

A boiúna, de mboi, "cobra" e una, "negra", também conhecida como boiaçu, de mboi e açu, "grande", ou ainda cobra-grande é, segundo Câmara Cascudo, o mais poderoso e complexo dos mitos amazônicos, exercendo ampla influência nas populações às margens do rio Amazonas e seus afluentes.

Faz parte do ciclo dos mitos d'água, de que a cobra é um dos símbolos mais antigos e universais. Senhora dos elementos, a cobra-grande tinha poderes cosmogônicos, explicando a origem de animais, aves, peixes, o dia e a noite. Mágica, irresistível, polimórfica, aterradora, a cobra-grande tem, a princípio, a forma de uma sucuri ou uma jibóia comum. Com o tempo, adquire grande volume, abandona a floresta e vai para o rio. Os sulcos que deixa à sua passagem transformam-se em igarapés. Habita a parte mais funda do rio, os poções, aparecendo vez por outra na superície. É descrita como tendo de 20 metros a 45 metros.

Martius (Viagem pelo Brasil) registrou a força assombrosa do medo que os indígenas tinham do monstro, com as dimensões multiplicadas pelo terror. Chamavam-no de Mãe-d'água e Mãe-do-rio, mas as histórias só mencinavam a voracidade da cobra-grande, arrebatando crianças e adultos que se banhavam. Recusavam-se a matar a cobra, porque então era certa a própria ruína, bem como de toda a tribo.

Esse registro, de 1819, denuncia a existência de um outro mito entrevisto e anotado por Barbosa Rodrigues (Poranduba Amazonense), o da constelação do Serpentário (Ofiúco), que aparece no céu em setembro, o tempo das roças, princípio do tempo de Coaraci, o Sol. Couto de Magalhães ouviu a lenda de como a noite apareceu, numa época em que não havia noite, e a filha de Cobra-grande pediu a noite ao pai como presente de casamento.

Há ocasião em que nenhum pescador se atreve a sair para o rio à noite, pois duas vezes seguidas foi avistada uma Cobra-grande... pelos olhos que alumiavam como tochas. Os pescadores foram perseguidos até a praia, somente escapando porque o corpo muito grande encalhou na areia. Esses pescadores ficaram doentes de pânico e medo da experiência que relatavam com real emoção. (Eduardo Galvão, Santos e Visagens, Brasiliana, São Paulo, 1955).


Mais Lendas da Boiúna

Em Belém, há uma velha crença de que existe uma cobra-grande adormecida embaixo de parte da cidade, cuja cabeça estaria sob o altar-mor da Basílica de Nazaré e o final da cauda debaixo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Outros já dizem que a tal cobra-grande está com a cabeça debaixo da Igreja da Sé, a Catedral Metropolitana de Belém, e sua cauda debaixo da Basílica de Nazaré: é o percurso da tradicional procissão do Círio de Nazaré, com 3,3 quilômetros de extensão. Os mais antigos dizem que se algum dia a cobra acordar ou mesmo tentar se mexer, a cidade toda poderá desabar. Por isso, em 1970 quando houve um tremor de terra na capital paraense, dizia-se que a tal cobra havia se mexido. Os mais folclóricos iam mais longe: "imagine se ela se acorda e tenta sair de lá!". 
Fonte: Jornal "A Crítica",

Manaus, AM

Em Roraima, conta-se que Cunhã Poranga ("índia bela") apaixonou-se pelo rio Branco e, por isso, Muiraquitã ficou com ciúme. Para se vingar, Muiraquitã transformou a bela índia na imensa cobra que todos passaram a chamar de Boiúna. Como ela tinha um bom coração, passou a ter a função de proteger as águas de seu amado rio Branco. 

Entre as populações que habitam as margens dos rios Solimões e Negro, no Amazonas, acredita-se que quando uma mulher engravida de uma visagem, a criança fruto desse terrível cruzamento está predestinada a ser uma cobra-grande.
Há quem acredite que a cobra-grande pode nascer de um ovo de mutum. 

Segundo uma lenda mais comum no Acre, uma cobra-grande se transforma numa bela morena nas noites de luar do mês de junho, para seduzir os homens durante os arraiais de festas juninas, como se fosse a versão feminina do boto. 

O folclorista Walcyr Monteiro conta que em Barcarena (PA) existe o lugar conhecido como "Buraco da Cobra-Grande", atração turística do local. 

Misabel Pedrosa diz que a Cobra-grande mora debaixo do cemitério do Pacoval, na ilha de Marajó.


Cobra-grande como navio encantado

Arte de Paulo Felipe M. Olimpo
Ticuna - O Livro das Árvores. 1997
Aparece sob diferentes aspectos. Ora como cobra preta, grande, de olhos luminosos como dois faróis, ora como embarcação a vapor ou a vela. Eduardo Galvão cofirma ter a Cobra-grande se tornado navio encantado. O poeta Raul Bopp assim interpretou a cobra-grande:

- Axi, cumpadre
arrepare uma coisa:

lá vem um navio
vem-que-vem-vindo depressa, todo alumiado.
Parece feito de prata...
- Aquilo não é navio, cumpadre
- Mas os mastros e as luises... e o casco dourado?...

Alguns contam que a cobra grande pode algumas vezes parecer um navio para assustar os ribeirinhos. Refletindo o luar, suas enormes escamas parecem lâmpadas de um navio todo iluminado. Mas quando o "navio" chega mais perto é possível ver que na verdade é uma cobra grande querendo dar o bote.


A cobra de Fawcett

O coronel britânico Percy Harrison Fawcett, explorador que realizou sete expedições na Amazônia de 1906 a 1925, relatou ter visto cobras gigantescas, ou seus indícios. Em um de seus diários, ele anotou, em 1907: "Estávamos calmamente seguindo a corrente preguiçosa, não longe da confluência do Rio Negro, quando quase sob o arco da igara apareceu uma cabeça triangular e vários pés de corpo ondulante. Era uma sucuri gigante. Corri para meu rifle enquanto a criatura fazia seu caminho rumo ao banco de areia e, quase sem esperar para mirar, disparei uma bala de ponta macia calibre .44 em sua espinha, dez pés (3 metros), abaixo da maldita cabeça."

O barco parou para que o coronel pudesse examinar o corpo. A despeito de ter sido mortalmente ferida, "convulsões subiam e desciam pelo corpo como golpes de vento em um lago de montanha." Embora não tivessem equipamentos para medições com ele, Fawcett estimou que a serpente tinha 19 metros de comprimento e 30 cm de diâmetro.

Nos pântanos de Madre de Diós, em Bení, Bolívia, Fawcett disse ter visto rastros de uma cobra que indicavam um comprimento de 24 metros.

Fontes: 
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sábado, 31 de outubro de 2015

As Bruxas do Paraná

No dia 23 de janeiro de 1775, o ouvidor da Comarca de Paranaguá, Antonio Barbosa de Matos Coutinho, lançou um edital na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba para avisar que haveria uma devassa geral para inquirir testemunhas sobre alquimistas, benzedeiras, feiticeiras e pessoas com pacto com o diabo, dentre outros crimes. Na época, as investigações e julgamentos cabiam às Câmaras Municipais, que responderam pelo Poder Judiciário até a Independência do Brasil, em 1822.

Segundo documentos históricos do Arquivo Público do Paraná, a devassa geral resultou na denúncia de duas mulheres, mãe e filha. O levantamento foi realizado pela advogada Danielle Regina Wobeto de Araujo, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisadora da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ela analisou, para a tese inédita de doutorado (ainda não defendida), os processos contra feitiçaria em Curitiba entre 1763 e 1777.

“A cidade teve, nesse período, 560 processos, sendo 60 contra mulheres. Dois deles foram por feitiçaria, em pleno auge do Iluminismo. O crime era atribuição das justiças eclesiástica, a Igreja, e comum, a Câmara Municipal”, diz Danielle. Ela destaca que o escrivão da Casa, Antonio Francisco Guimarães, foi um dos quatro denunciantes das rés, acusando-as de terem feito feitiços e pacto com o diabo. A mãe, Francisca Rodrigues da Cunha, tinha cerca de 60 anos, enquanto a filha, Luiza Rodrigues da Cunha, declarou ter 23 anos.

Os registros apontam que as mulheres eram indígenas, da “nação carijó”, e estavam descalças no dia do julgamento. O marido e pai das acusadas de feitiçaria, de acordo com o processo, era “escravo do hospício”. “Outra denunciante, Romana Álvares Teixeira, falou que elas tinham matado seu marido com um feitiço e seduzido juízes para escapar do processo. Também teriam sacrificado bichos e aleijado uma pessoa”, relata Danielle.

“Uma curiosidade do processo é que foi chamado um feiticeiro do povoado de Ponta Grossa, que confirmou que o homem realmente morreu vítima de feitiço. No entanto, ele fugiu antes de se pronunciar no julgamento”, conta a pesquisadora. Já a defesa argumentou que a testemunha queria se casar com Luiza, que o rejeitou. Ele então teria feito a acusação para se vingar. Outra justificativa apresentada para pedir a absolvição foi que as rés haviam recebido educação católica. Presas desde 6 de fevereiro de 1775, mãe e filha foram absolvidas pelo ouvidor Coutinho no dia 22 do mesmo mês, por falta de provas.


Exorcismo

O outro processo da Câmara Municipal de Curitiba contra feitiçaria, no período pesquisado, foi instaurado no dia 7 de março de 1763. A “negra forra” Sipriana Rodrigues Seixas, casada e grávida, na faixa dos 40 anos, foi acusada por Manuel da Cunha de provocar doenças em sua esposa, quatro filhas e uma irmã. “O denunciante afirmou que ela ‘tinha um cartório’ com mulheres de nome ‘Fuã’ (não é possível identificar quantas eram). Ou seja, que elas estavam organizadas”, relata Danielle.

“Ele disse que, devido aos feitiços de Sipriana e das Fuãs, suas familiares vomitavam baratas vivas, pedaços de ossos, cabelo e pernas de sapo, entre outras coisas”, completa. O processo menciona que foi chamado o reverendo vigário, e que apenas com exorcismos as supostas vítimas melhoravam. Outra acusação é que as mulheres faziam bolos envenenados, com os quais mataram algumas pessoas.

Segundo a pesquisadora, uma das testemunhas afirmou que a reigão da Vila de São José dos Pinhais tinha muitas feiticeiras, subentendendo-se que as rés moravam na região. “O interessante é que a Romana, que 12 anos depois acusaria Francisca e Luiza, foi uma das pessoas que defendeu Sipriana, alegando sua inocência”, afirma.

A sentença saiu no dia 14 de junho de 1763, pelas mãos do juiz ordinário de Curitiba Manoel Gonçalves de Sam Payo. Elas foram condenadas à prisão pela prática de feitiçaria, sem um tempo estipulado. Sipriana, então, fez uma apelação à Ouvidoria de Paranaguá (Curitiba só se tornou sede da Comarca em 1812), mas não há informações sobre a continuidade do processo.

Há uma possível referência ao caso no “termo de vereanssa” da sessão de 10 de setembro de 1763. O juiz ordinário Sam Payo discorreu sobre mulheres que estavam presas na cadeia da vila “por crime que lhe arguirão partes que dellas denunciarão” e deveriam ser enviadas a Paranaguá, sede da Comarca.

Ele pediu dinheiro ao Conselho para a remessa das detentas, mas o tesoureiro da Câmara Municipal de Curitiba argumentou que não seria possível, devido às “muitas despezas que se havião feito”. Não foi localizada, nas demais atas do ano e nas de 1764, outra menção às mulheres presas que deveriam ser enviadas a Paranaguá.

Outra pesquisadora, Liliam Ferraresi Brighente, já havia realizado um levantamento no Arquivo Público do Paraná sobre processos contra a feitiçaria entre 1700 e 1750. Ela identificou um caso de 1735, em Paranaguá. Denunciada por Manoel Gonçalvez Carreir, a índia Maria do Gentio da Terra foi considerada culpada e “degredada” (expulsa) da vila.


Análise


“São processos típicos da época, sem lógica cartesiana e materialmente desgastados pelo tempo”, analisa Danielle. “Eles indicam a imposição da Igreja Católica por meio do direito e que a sociedade ainda tinha uma visão mágica do mundo. Apontam que as autoridades da Câmara Municipal preocupavam-se em manter a religiosidade”.

O zelo pela religiosidade é corroborado por diversos documentos da época. Primeira correição da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e base para posturas dos futuros ouvidores e da Câmara Municipal, os provimentos do ouvidor Raphael Pires Pardinho, de 1721, não trataram apenas de questões para aorganização da cidade.

Dividido em 129 “artigos”, o documento trata, por exemplo, do pagamento do dízimo e da obrigação de todos assistirem e prepararem suas casas para as procissões de Corpus Christi e de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, dentre outras, sob a pena de multa de uma “pataca”.

Já os provimentos de 1800, do ouvidor-geral e corregedor João Baptista dos Guimarães Peixoto, afirmam que os juízes ordinários deveriam prezar pela conservação da decência e respeito. Caberia a esses oficiais da Câmara Municipal “dar parte” ao corregedor de “pessoas que mostrarem publicamente pouca religião e que forem escandalosas”.

“O Brasil não reproduziu a caça às bruxas vista na Europa. A Inquisição, de uma maneira geral, esteve mais preocupada em investigar novos cristãos (judeus convertidos) e sodomitas (homossexuais)”, complementa Danielle. “O perfil dos acusados de feitiçaria, tanto pela Igreja quanto pela justiça comum, era de mulheres pobres. Negras, pardas ou índias”.

De acordo com o “Dicionário do Brasil Colonial”, o país teve, entre os séculos 16 e 18, 200 acusações de fetiçaria. “Poucos foram os processos completos do Santo Ofício português nessa matéria. (…) Menos preocupada com a feitiçaria que com o Judaísmo, a Inquisição portuguesa perseguiu pouco a feitiçaria, rastreando mais o shabat judaico que o sabá diabólico”, explica a obra.


Matérias nos jornais


No final do século 19 e início do século 20, quando já circulavam jornais em Curitiba, há diversos registros na imprensa sobre supostos casos de feitiçaria. O Diário da Tarde, por exemplo, possuía a seção “Vitrina do Diabo”, com viés sensacionalista. Uma das personagens das notícias é Anna Formiga. Segundo pesquisa publicada em 1991, do historiador Johni Langer, ela residia na rua Doutor Pedrosa, em trecho hoje denominado Benjamin Lins, e “era famosa por suas supostas ligações com o demônio”.

O Diário da Tarde publicou, no dia 8 de maio de 1889, uma nota intitulada “Feiticeira – Artes de Satanaz”. “Anna Formiga é o nome da mulher que diz ter relações com Satanaz, cuja vontade domina. É moradora à Rua Dr. Pedroza. Em noite passada, teve uma questão com um cabo do 13º regimento de cavallaria e jurou vingar-se”, dizia. A publicação afirmou que ela então lançou um feitiço contra o homem, cuja esposa adoeceu. “A polícia tomou conhecimento do facto”.

Dois dias depois, o Diário da Tarde veiculou a nota “O caso da feiticeira – Novas notícias”. O jornal denunciava “novas bruxarias”, sem vinculá-las a Anna Formiga: “Não seria máu que a polícia diligenciasse na descoberta dessas bruxas, feiticeiras ou encantadas, como quer que se lhes chame”.

Autora do livro “Lendas Curitibanas”, a escritora Luciana do Rocio Mallon publicou uma história na internet sobre Anna Formiga, apelidada de “bruxa de Curitiba”. O texto afirma que ela se chamava Ane O’Neil e fugiu da Escócia para escapar da acusação de matar crianças em “rituais macabros”. Em Curitiba, oferecia serviços de curandeira e lia a sorte das pessoas.

“Como a mulher tinha o traseiro avantajado, igual o de uma tanajura, e comia muitos doces, recebeu o apelido. Esta feiticeira tinha hipoglicemia e toda vez que sua taxa de glicose baixava, passava mal. Por isso, muitas vezes aceitava doces como forma de pagamento pelos seus serviços”, relata. A lenda urbana justifica que o cabo a prendeu por furtar guloseimas de uma confeitaria, e então Anna lançou-lhe o feitiço, responsável por matar sua esposa. Já a fiança teria sido paga pelos clientes da “bruxa”.

Mas nem só das histórias da Anna Formiga vivia o Diário da Tarde. No dia 25 de setembro de 1901, por exemplo, o jornal trouxe a nota “Cartomantes e desordeiros”. “Alguns moradores da rua S. José, nas proximidades da rua Silva Jardim, queixão se contra a permanência n’aquelle ponto de uma família de cartomantes, que reunindo a noute em sua casa uma porção de desordeiros passam-n’a toda em um sabbat infernal, cantando obscenamente e fazendo enorme barulho com grande escandalo da visinhança”, dizia.

Nesta época, porém, a Câmara de Curitiba não respondia mais pelo Poder Judiciário. “Com a Independência do Brasil, as funções institucionais das Câmaras sofreriam algumas alterações. A mais digna de nota foi a perda de atribuições judiciárias”, destaca o “Livro dos 300 Anos da Câmara Municipal de Curitiba”.

Tais histórias, então, passaram a fazer parte do imaginário popular. “A Anna Formiga realmente existiu, mas não há provas dos rituais atribuídos a ela. As lendas urbanas são exatamente isto: causos que o povo conta, sem comprovação científica”, conclui Luciana.

A sociedade curitibana no final do século 19, época em que Anna Formiga era noticiada pelos jornais como feiticeira. 
A foto é da rua João Gualberto, em 1880
Câmara de Curitiba instaurou vários processos contra feitiçaria no século 18 
-Foto: acervo Casa da Memória.
Por Fernanda Foggiato, jornalista da Câmara Municipal de Curitiba
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