sábado, 1 de dezembro de 2012

Ancestral Local


O artigo a seguir é uma pertinente reflexão sobre o paganismo brasileiro de autoria do amigo Hugo Cezar F. Gondim, o Druida do vento, autor do fantástico blog druidadovento.blogspot.com.br, foi publicado com autorização.

“Pagão Brasileiro” gosta de índio europeu ou estrangeiro. É perceptível a parafernália norte-americana, o calendário Maia que é Asteca, os negócios da China, as brumas de Avalon, a entoação de Mantras e o sal do Mediterrâneo. Eu ainda estou me esforçando para encontrar os deuses ancestrais do Brasil, que desapareceram do repertório de estudos do tal “Pagão Brasileiro”. É notável a falta de sentimento pela Terra que está sob nossos pés neste país, atingindo pagãos, cristãos e sei lá quem. Nós nunca olhamos para o chão, sempre estamos a procura de outro lugar. Li uma frase esses dias que me intrigou: “Se não fosse Pedro Alvares Cabral, eu estaria na Europa”. Quem disse que Pedro Alvares Cabral tem algo com sua encarnação atual? 
Quando as espiritualidades pagãs no Brasil exploram deidades indígenas, elas são quase sempre Incaicas, Maias, Astecas, Norte-Americanas e Canadenses. A figura do Xamã para um “pagão brasileiro” é um velho índio Hopi ou Cree, ou ainda um Siberiano. Pajelança não é paganismo, segundo o “pagão brasileiro”, porque a Umbanda usufrui. Muito além disso, criou-se a consciência que o pajé morreu, inexistente na atualidade, são “benzedeiros”. Cultura indígena é coisa de historiadores e antropólogos, que devem congelar seus mitos em livros. Pensamento dos nossos avós de que “índio bom é índio morto”. 

Se o Pajé com elementos cristãos também não é mais “pagão”, Neo-xamã e xamã urbano são o que então? Mas o Pajé é um pobre coitado que aceitou ser subjugado pela cultura do branco. Não, mas espere um instante! Essa fala é do colonizador, não do nativo. Os povos que aqui viveram nunca foram submissos, eles lutaram e ainda lutam. Quem deu o veredito que eles “aceitaram de bom grado” foram os senhores, filhos de Pedro Alvares Cabral. Houveram grandes e duradouras resistências, como a Mbya-Guaikuru. As mães reclamaram quando jesuítas e colonos tiraram seus filhos de seus braços para o trabalho. Pajé viu tudo, mas brasileiro, parece não ver nada.

Não me venha com essa que você, brasileiro, não tem descendência indígena! Nós todos somos um povo miscigenado, colorido e muito belo. Nós todos temos “um pé na casa grande, na senzala e na aldeia”. Todos esses são nossos ancestrais, seja nossa história sofrida ou não. Já assistiu o filme brasileiro “Desmundo”? Ele conta o período da colonização, com certos detalhes, e demonstra como surgiu a sociedade brasileira: um povo multiétnico.
 
 A justificativa de ter ou não descendência indígena não é o sufiente também, pois a maioria das tradições pagãs prezam a ancestralidade local. Explicando: Ancestralidade Local é o respeito pelos espíritos ancestrais daquele lugar ou região, com gostos, rostos e origens diferentes. No druidismo há três ancestralidades principais: sanguínea, espiritual e local. Ou seja, deve haver respeito e honra para todos os aspectos. Observo muitos rituais “pagãos brasileiros” que fazem sua abertura sem ao menos dizer “Olá, posso entrar?”. Você gostaria que alguém entrasse na sua casa sem avisar? Ou melhor, se você fosse um espírito, que viveu numa dada região e sofreu com a invasão de outros povos, que destruíram sua estrutura cultural, gostaria de ter novamente a mesma experiência no plano espiritual? É momento de exercer respeito com os povos nativos (e isso não é novidade).

Eu gosto de ver “pagão brasileiro” engajado em lutas pela defesa do indígena brasileiro. Acho lindo quando vejo em um ritual oferendas e palavras poéticas aos ancestrais da Terra. Creio ser muito válido chamar meus avós indígenas e curandeiros ancestrais para abençoar os meus passos. Amo as lendas nativas e sua sabedoria e gosto de pesquisar sobre. Se somente esperarmos que historiadores e antropólogos façam catálogos da cultura indígena, ela morrerá. É necessária a prática.


Após ler um livro sobre xamanismo, tenha certeza, você não se tornou um xamã. Lembre-se que na prática que se vê o xamã. Leia, informe-se, saiba sobre a cultura local. Vá a uma Aldeia, desmistifique a sua visão do “índio de livro didático”. Se puder e o xamã tiver essa permissão, deixe-se treinar por ele. Pode ser pouco o que ele tem a oferecer, mas é tudo, é sutil. Um xamã não diz toda a sua sabedoria, pois acredita que ela se desenvolve aos poucos no jovem aprendiz.

Não deseja estudar xamanismo? Você tem toda a liberdade, mas está preso ao respeito pela ancestralidade local. Ame e pratique de corpo e alma com sua parafernália norte-americana, calendário Maia que é Asteca, negócio da China, brumas de Avalon, entoação de Mantras e sal do Mediterrâneo. Entretanto, por favor, faça uma pequena pausa e diga antes de fazer o ritual: “Olá, tenho a permissão?”. Se o problema é não saber o nome, não há problema. Eles, os espíritos ancestrais da Terra, só querem ser reconhecidos por nós. Um simples gesto é uma oferta de coração. Vá aprimorando isso.