quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A compreensão dos xamans


O mal-entendido neoxamânico pode ser gigantesco

Agradecimentos ao administrador do blog Cronistas Indígenas, que gentilmente permitiu a publicação desse excelente texto em nosso blog. O original se encontra nesse link.
Pelo Dr. Jacques Mabit
Traduzido do francês para o português por José Pimenta**

“Xamanismo amazônico” / “estudantes ocidentais”. A justaposição destes dois termos mergulharia sem dúvida os nossos antepassados na perplexidade, mas se tornaram familiares para nós. No entanto, de acordo com um especialista, a nossa confiança tranquila esconde um equívoco perigoso. Não se atravessa ingenuamente os milênios que separam a modernidade da magia pré-histórica! O alarme é ainda mais justificado por vir de um terapeuta que não temeu pela sua reputação, saindo do caminho seguro para ir ao encontro apaixonado de “curandeiros” da selva. Amigo de Jeremy Narby ou Jan Kounen, ele vê o turismo xamânico com um olhar preocupado. Há mais de dez anos, o Dr. Jacques Mabit organiza estágios para ocidentais com xamãs da Amazônia peruana. No início, sua ação se concentrava nos viciados em drogas, para os quais a “visita “mágica” à sua interioridade. paradoxalmente, os livraria da droga. Mas, aos poucos, o “neoxamanismo” virou moda e o centro Takiwasi (O pássaro que canta) aceitou abrir suas portas a um público cada vez maior. Hoje, Jacques Mabit faz um balanço e seu discurso é mais que ambivalente. Segundo ele, muita ingenuidade, uma impaciência infantil, hábitos aconchegantes e uma longa ruptura com a natureza e o corpo selvagens e, acima de tudo, uma ignorância estúpida e generalizada da dimensão simbólica verdadeiramente vivida, associada com a hipertrofia do ego, fazem do encontro entre ocidentais e xamãs, mais frequentemente do que poderíamos pensar, um mercado de ilusões. E como o objeto do mal-entendido não é nada mais que o despertar da consciência, a ilusão pode rapidamente se transformar num labirinto assustador. A seguir, partes de um artigo do Dr. Jacques Mabit publicados no verão de 2005 na revista Synodies.


A onda xamânica

No pequeno refúgio da Alta Amazônia onde eu moro há quase vinte anos, assisto a ondas crescentes de ocidentais sedentos para entrar em contato com as práticas das medicinas tradicionais amazônicas. Como eu fui um dos iniciadores desse movimento, não posso deixar de hesitar entre a satisfação e o pavor diante desse entusiasmo para o que agora se convencionou chamar pelo nome de “xamanismo”, inadequado do ponto de vista antropológico. (...)

Assistimos atualmente a uma chegada maciça de cidadãos de países do Norte nos cantos mais isolados das florestas, das montanhas e dos desertos do Peru, e de outros lugares, para encontrar ali o “xamã” ainda “virgem” que irá conciliá-los consigo mesmo. As coisas também se complicam desde que o movimento inverso se iniciou, ou seja, com a ida de “xamãs” para Europa, sem falar de brancos que se apresentam como iniciados, capazes de substituir os mestres indígenas. (...).

Ora, o universo simbólico de uns e dos outros é totalmente distinto e é justamente essa maneira específica de apreender o vivido interior que será colocada em jogo durante as experiências xamânicas, como por exemplo com a ayahuasca. Corremos portanto um forte risco, se o nosso viajante ocidental não tiver um mínimo de conhecimento do universo simbólico de sua própria cultura (o que se tornou a regra) de confundir charlatães com grandes mestres e visões pessoais com revelações universais. E a capacidade de autoilusão é tanta que diante da expectativa colocada e dos investimentos envolvidos no processo, o interessado não se importa de ser advertido de sua inocência porque pensa ouvir do seu “mestre”, que ele agora faz parte dos “iniciados”. A questão que se coloca portanto é: um ocidental pode apreender a experiência xamânica de modo a tirar dela um beneficio real e não contribuir à degradação acelerada dessas práticas nas sociedades tradicionais?


Quando o Senhor Dupont reencontra um xamã indígena. 

Nós sabemos que somos fisicamente incapazes de suportar até mesmo uma fração da experiência real de um xamã amazônico. Mas nossas fantasias de afinidade se alimentam de outras coisas. Assim, um ocidental pensa ver no xamã um homem que fez um longo trabalho sobre ele mesmo e que venceu seus demônios interiores: uma mistura de “bom selvagem” de Rousseau e de “sábio” oriental. Mas um índio pode se tornar um especialista no uso de forças invisíveis da natureza (notadamente humana) sem ter feito qualquer trabalho sobre si, tendo essencialmente acumulado no seu corpo as armas energéticas necessárias para o combate. 

No mundo tribal, extremamente estruturado e hierarquizado, a sobrevivência do grupo tem prioridade sobre o indivíduo e a lei de talião (“olho por olho”) deve constantemente reequilibrar a relação com o outro, cujo disfuncionamento explica todos os males. Enquanto isso, o nosso fundo ocidental greco-judaico-cristão nos pede para fazer do outro um irmão e não um inimigo, o indivíduo representando a nossa maior meta.

Podemos ter que lidar com um grande feiticeiro, um homem poderoso, mas que não controla em nada seus impulsos egóticos. A maior parte dos xamãs são temidos por seus próximos por causa desse poder de inversão agressiva que é sempre possível (...). É por isso que muitos jovens recusam o aprendizado xamânico, para não se expor a “serem odiados por toda a vida” (...)

Diante deste mundo de feitiçaria extremamente ativo, vários ocidentais acreditam estarem protegidos pelo fato de “não acreditarem”. Eles ririam se um índio lhes dissesse que estariam protegidos de um vírus ou de uma bactéria por não acreditarem nisso! (...)


O ângulo cego do cérebro direito 

Da mesma forma que os ocidentais têm desenvolvido de maneira extraordinária as funções psíquicas do lado esquerdo do cérebro, os grupos étnicos da Amazônia são especialistas na utilização das funções psíquicas do lado direito do cérebro que, no nosso caso, é subutilizado. Podemos comparar a nossa ignorância sobre esse assunto à ignorância de um índio amazônico médio em física quântica ou em filosofia germânica. 

Um grande xamã pode se mostrar incapaz de expressar suas experiências em sequências lógicas. Por outro lado, quantos grandes cientistas ocidentais são inaptos para gerenciar sua vida emocional ou interpretar seus sonhos?

Os xamãs desenvolveram técnicas sofisticadas para a gestão de energias - processo de materialização-desmaterialização, de domínio do humor dos sujeitos, de indução de pensamento através dos sonhos, etc. Essas funções, que escapam à nossa formação ocidental, integram o espaço inconsciente da nossa psyché. Sua manipulação é ainda mais eficiente em nós por não sabermos de sua existência. Assim, existe uma arte xamânica de sedução altamente desenvolvida, que pode ter objetivos sexuais, mas não só, e que afeta muitos “turistas xamânicos” sem que eles percebam (...).


Alargamento da consciência ou inflação do ego? 

O mal-entendido também acontece quanto à finalidade da abordagem xamânica. O Ocidental quer compreender racionalmente para satisfazer sua inquietação e encontrar a paz, que é principalmente a de sua mente perturbada. Para um habitante da Amazônia, a angústia essencial diz respeito ao seu equilíbrio com a natureza e o mundo invisível, sua capacidade de trabalho físico para manter sua autossuficiência, sua sobrevivência. Se o seu corpo é purificado, ele sabe, então, que sua cabeça funcionará melhor, que ele terá sonhos, que os espíritos se aproximarão... Para o Ocidental, é a ausência de visão que é geradora de frustração porque é isso que ele espera: ele ignora que, para a maior parte das etnias amazônicas, tomar ayahuasca é secundário em comparação com a ingestão das preparações vegetais purgativas! Quando um índio toma ayahuasca, o xamã pergunta-lhe, sobretudo, se as plantas vomitivas tiveram efeito, porque é a purificação física que atesta o sucesso da bebida. (...).

De modo mais geral, mesmo num contexto ideal, com um xamã correto, a ausência de preparação para a entrada num universo simbólico pode levar a sérios problemas. Para o índio na sua tribo, a bagagem cultural transmitida desde a infância fornece uma compreensão das experiências xamânicas: uma cosmogonia, interpretações coletivas, lendas, mitos, histórias familiares ou clânicas que lhe possibilitam situar automaticamente o seu vivido em relação a si mesmo e ao seu universo de referência. Ao contrário, o empobrecimento simbólico da educação racional ocidental, o reducionismo do mito científico e a dessacralização das práticas culturais produzem cidadãos desprovidos de referências claras do mundo interior, assim como de qualquer dimensão transcendental. E o desaparecimento dos ritos de passagem “constrói” uma massa de adultos que não nasceram psiquicamente e permanecem trancados num mundo materno no qual as funções psíquicas masculinas são excluídas e se tornam inacessíveis. No ocidental, os processos de reificação são uma tentação permanente, objetivando o que é da ordem do simbólico. O simbolismo entre nós se esvaziou de sua substância. Ele não desempenha mais nenhuma função operante e se transformou na imagem refletida da virtualidade informática. Por exemplo, várias feministas se sentem ofendidas pelo fato de, segundo os curadores, uma mulher não poder tomar ayahuasca quando está menstruada. Elas interpretam esse fato como um vestígio machista de tribos primitivas ou então pela via de uma leitura psicanalítica em torno da questão do desejo. Procuram, portanto, transgredir essa recomendação muito importante, que diz respeito concretamente ao fato de que as emanações do sangue menstrual proíbem momentaneamente, no plano energético, as viagens interiores.


Quanto ao ego, com sua pretensão de ser todo poderoso, abraça prontamente as experiências xamânicas procurando se apropriar delas. Quantos ocidentais que tomam ayahuasca e visualizam a energia em suas mãos pensam imediatamente que são chamados para se tornar curandeiros ou que já eram sem mesmo saber? (...)

Teriam ainda outros elementos culturais para desenvolver, elementos que caracterizam o mundo tribal e que são fontes de incompreensão entre índios e ocidentais. Assim, a “sinceridade” ocidental será quase sempre percebida por um índio como uma agressão, e (por sua vez) sua impossibilidade cultural em dizer “não” será vista como uma hipocrisia por um visitante ocidental. Como fazer entender em poucas palavras que a amizade entre um homem e uma mulher não existe no contexto tribal? Uma europeia bem intencionada, que aceita amavelmente o gesto de um índio, na realidade, significa para este que está disponível sexualmente. 


As portas da reconciliação

Dizer que “cada um possui um xamã dentro de si” nos parece no melhor dos casos uma piada, ou, no pior, uma mentira. As vocações são raras e também existem poucas pessoas que têm um “Mozart ou um Modigliani dentro de si”. Enquanto são necessários anos de formação para se tornar um técnico especializado, ficamos surpreendidos quando sabemos que podemos nos tornar xamã e dominar os estados de consciência após alguns finais de semana de formação no bosque de Fonteinebleau! Muitos estágios ditos xamânicos propostos no contexto new age fazem uso, na realidade, de técnicas de relaxamento, de sonho acordado, de indução hipnótica, etc. Só têm de xamânico o nome (...).

A iniciação é um processo lento e longo que exige a integração das experiências em diversos níveis (físico, psíquico, emocional, espiritual) e no qual um ocidental não pode ignorar a sua própria cultura. Mais que uma fuga para um outro mundo, trata-se de reintegrar suas próprias raízes e de se reconciliar consigo mesmo e com seus ancestrais, o que, no nosso caso, significa se reapropriar também do fundamento cultural judaico-cristão. O desvio para uma cultura ancestral pode se provar sensato com a condição de estarmos preparados para voltar “pra casa”. Além disso, a aquisição prévia ou simultânea de uma formação que tenha uma dimensão de ajuda ou uma profissão que inclui uma dimensão terapêutica me parece essencial. A experiência xamânica deve ser preparada antes, ser conduzida dentro de um dispositivo simbólico de contenção e, por fim, ser seguida por etapas ulteriores de integração do vivido. Ela exige, portanto, um espaço específico. 

Com essas condições, o Espírito que sopra onde quer e quando quer, poderá inspirar vocações terapêuticas, que se enraízam em culturas diferentes mas que falam do Homem eterno.

Publicado na Revues Synodies “Le transpersonnel?”, verão 2005, Ed. GRETT (Groupe de Recherche en Thérapies Transpersonnelles). 
* Originalmente publicado em: http://www.inspir.be/?page_id=2792

** O ProfDr José Pimenta é antropólogo, 
professor na UnB e possui um longo histórico
 de pesquisa e vivência junto ao 
povo Ashaninka do Alto Juruá, no Acre.

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