sexta-feira, 24 de maio de 2013

Na Floresta


Gibran

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor.
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera.
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão.
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão.
Dá-me a flauta e canta! 
O canto é o pasto das mentes. 
E o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.

 Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte.
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,  
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.

Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,  
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar.
Dá-me a flauta e canta!  
E esquece a injustiça do opressor.
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue.
Na floresta não há crítico nem sensor.
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: 'Que estranho'.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho. 
Ah, dá-me a flauta e canta!  
O canto é a melhor loucura e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.

Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: 'Ele é desprezível e eu sou um grande senhor'
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil.


Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade.
Quando o leão ruge não dizem: 'Ele é temível'.
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço
do pensamento e o direito dos homens fenece como folhas de outono.
Dá-me a flauta e canta!  
O canto é a força do espírito e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis

Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera. 
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração.
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos. 
Dá-me a flauta e canta! 
O canto é o segredo da vida eterna e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Reflexão

Hoje vi a vida nascer do meio da carne pútrida da morte de Samhain. Senti e distingui o aroma de flores no meio do cheiro de sangue.


Hoje vi um feixe de sol iluminando um minimo broto de um arbusto seco. Entendi o que vinha sentindo. Morrigan em sua plenitude invernal, começa a se despedir. É a vez dela morrer e se recolher (eu já morri, mais uma vez).

Começa a levar seu reinado para deixar o reinado de Briga vir. A terra antes morta/adormecida, recebeu as sementes em seu ventre e os guardou na escuridão. 
 
Logo o fogo de Briga, que começa a aquecer a terra trará a tona a vida, fará vivificar as flores, trará a forja de nossas vidas, a cura de nossa feridas e nos banhará em AWEN! 
 
Que a terra desperte lentamente de seu sono ainda sob os dominios de Sanhaim, para fazer as cabrar balirem em Oimelc. Jorrem seu leite na terra! Ganhem vida! Saiam de nossos sonos frios aos poucos e vejam na beira da caverna os raios do sol querendo, petulantes, aquecer as sementes explodiando-as. É hora de tomar força para as flores.
Morrigan, agradeço pelo Sanhaim e a morte de nosso egos e fraquezas, me tornaste um guerreiro mais forte. Foram ensinamentos tão dificeis de aprender dessa vez... acredito que ainda não consigo entendê-los. Ainda tentando sarar as feridas dessa batalha que apenas começou 

Briga, seja bem vinda! Eu tenho vida! Senhora, preciso tanto de ti. Seu fogo que aquece, sua cura que me renova, seu Awen que me inspira. Minha espada está flamejante para continuar o caminho, banhada pelo sangue de Morrighan e brilhante com o Awen de Briga!

Extraído do blog Chwilen
 
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sábado, 27 de abril de 2013

Palavras de Cailleach

"Cailleach fala:




Meus ossos são frios, meu sangue ralo.
Eu busco o que é meu.
Eu busco o que ainda não foi semeado.
Eu busco os animais para cavernas quentes
e mando meus animais para o Sul.
Eu ponho meus ursos para dormir
e mudo o pelo de meus gatos e cães para algo mais quente.
Meus lobos me guiam, seu uivo anuncia minha chegada.
Os cães, lobos e raposas cantam a canção da noite,
a serenata da anciã, a minha canção.
Eu digo sim a vida e agora digo sim a morte.
Eu serei a primeira a ir para o outro lado.
Eu trago o frio e a morte, sim, pois este é meu legado.
Eu trouxe a colheita e se você não colheu suas maçãs
eu as cobrirei de gelo.
Após o Samhain, tudo o que fica nos campos me pertence."

Obtido no blog "Era da Filha"



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quarta-feira, 24 de abril de 2013

A Deusa Macha

          

                  
A Deusa Macha foi adorada na Irlanda mesmo antes da chegada dos celtas. Ela é uma deusa tríplice associada com Morrigan a deusa da guerra e da morte. É ligada também a Dana no aspecto de fertilidade da mulher. Seu pai era o "Aed, o vermelho" e sua mãe era Ernmas (druida feminina).

Há diversas lendas que convergem à Deusa Macha. Às vezes ela aparece como sendo pertencente  à raça de Thuatha De Danann, mas em outras surge como uma rainha mortal. Portanto, é normal a confusão à respeito do que realmente ela é.

Macha foi esposa de Nemed e consorte de Nuada; chamada de "Mulher do Sol". Ancestral do Galho Vermelho, é a Rainha da Irlanda, filha de Ernmas e neta de Net. Seu corpo é o de um atleta e seus símbolos são o cavalo e o corvo.

Macha está presente no "Livro das Invasões" quanto nas lendas do Ciclo de Ulster. Esta deusa é uma deidade tipicamente celta, pois em dado momento ela parece ser suave e generosa, para em outro transformar-se em terrível mulher guerreira.

Em algumas fontes, Macha é citada como uma das três faces de Morrighan, a maravilhosa deusa da guerra, da morte e da sensualidade. No "Livro das Invasões", a seguinte frase descreve esta triplicidade;
"Badbh e Macha, grandes poderes.
Morrighan que espalha confusão, Guardiãs da Morte pela espada, Nobre filhas de Ernmas."
Nesse contexto, Macha é retratada como uma mulher alta e destacada, vestindo uma túnica vermelha e cabelos castalho-amarelados.
Estas três deusas esconderam o desembarque dos Thuatha de Dannan na Irlanda no início dos tempos. Elas fizeram o ar jorrar sangue e fogo sobre oa Fir Bolgs, aqueles que inicialmente se opuseram contra os Thuatha, e depois os forçaram a abrigá-los por três dias e três noites.

No "Livro Amarelo de Lecan", Macha é glosada como "um corvo, a terceira Morrighan".
Mas quem são as três Morrighan?
São:
Nemain - "frenesi", a que confunde as vítimas e espalha medo;
Morrighan - "Grande Rainha", a qual planeja o ataque e incita à valentia;
Macha - o corvo que se alimenta dos cadáveres em combate. Está também associada a troféus de batalha sangrentos, como as cabeças recolhidas dos inimigos, chamadas de "a Colheita de Macha". Esta sua ligação com a arte da batalha é reforçada nome das Mesred machae, os pilares das fortalezas, onde as cabeças dos guerreiros derrotados eram empaladas.

Macha é também a deusa que guia às almas ao além-mundo. Ela vive na terra dos mortos à oeste. Antes de sua ligação com à morte, ela representava a quintessência das fadas. É igualmente considerada uma deusa da água semelhante a Rhiannon e Protetora dos Eqüinos como Epona. Está ainda, associada à deusa do parto, especialmente se este for de gêmeos.


A MALDIÇÃO DE MACHA

Macha, segundo conta uma das lendas, é uma Deusa que preferiu viver entre os mortais. Teve como seu primeiro marido o líder Nemed, que morreu em uma batalha, narrada no "Leabhar Gabhála" (O Livro das Conquistas),
Macha governou a Irlanda por um bom tempo sozinha, até unir-se ao seu segundo marido Cimbaeth, que foi quem construiu o forte real de "Emain Macha".

Mas foi com seu terceiro marido, Crunniuc que surgiu a lenda de sua maldição. A história inicia-se quando Crunniuc, um fazendeiro de Ulster fica viúvo e deseja uma nova esposa. Macha, uma senhora misteriosa, entra em sua casa, organiza seu lar, dá ordens aos seus criados, fazendo tudo para agradá-lo. À noite faz amor com ele, convertendo-se desta forma sua esposa.

Como deusa protetora dos eqüinos e apaixonada por seu marido, ela multiplicou-os de maneira assombrosa e passava as manhãs correndo e competindo com eles pelos prados. Neste período, Crunniuc prosperou como nunca, e recebeu o reconhecimento dos outros nobres da região. Aparentemente, a mulher, cujo nome ela o instruíra a jamais perguntar, trouxera-lhe boa fortuna. E, logo em seguida Macha fica grávida.

Chegou então a época em que, Crunniuc deveria assistir a um Festival Anual, dos quais todo mundo participava. Macha havia lhe pedido para não ir, advertindo-lhe que se falasse dela atrairia desgraça para os dois. Crunniuc não desistiu, entretanto prometera não dizer uma só palavra sobre seu relacionamento. 

O próprio rei de Ulster, Conchobar, presidia os festejos. Num certo momento, para agradá-lo, alguém fez elogios aos seus cavalos, garantindo que não havia outros mais velozes em todo o mundo. Crunniuc, não conseguindo conter-se, afirmou que sua mulher corria mais rápido do que qualquer quadrúpede. 

O rei com raiva mandou prendê-lo e exigiu uma comprovação de tais palavras. Sendo assim, forçam Macha a comparecer ao festival para competir com os cavalos do rei sob pena de matarem seu marido se ela resistisse. Ela protestou e apelou pedindo então que pelo menos o rei aguardasse o término de sua gestação para que tal feito fosse realizado. 

Lembrou-lhes que todos tinham mãe e perguntou-lhes o que sentiriam se obrigassem a cada uma delas a uma prova semelhante em estado tão avançado de gravidez. Mas de nada adiantou seus lamentos, pois a maioria dos homens devido ao excesso de álcool lhes parecia muito atrativo aquele perigoso desafio.

Macha, não teve outro remédio a não ser aceitar a tal corrida. Trouxeram então os cavalos e teve início a competição, que teve um fim muito breve, pois ela alcançou a chegada rapidamente com uma vantagem folgada. 

No entanto, no final, caiu ao solo gritando de dor e naquele mesmo instante deu à luz gêmeos. Neste instante todos se deram conta do que haviam feito, mas foram incapazes de moverem-se para ajudá-la. Foi quando ergue-se e anunciou que ela era a Macha e que seu nome seria conhecido para sempre naquele lugar e amaldiçoou todo o povo do Ulster, porque a piedade jamais morou no coração daqueles homens. A partir daquele dia, a vergonha e a desonra que lhe haviam provocado voltariam à eles multiplicadas e toda a vez que seu reino estivesse em perigo se sentiriam tão fracos como uma mulher ao dar à luz. 
E assim a maldição se cumpriu. Somente as mulheres, as crianças e o Herói Cuchulainn, filho de Lug, o único imune à maldição, ficaram a salvo das palavras de Macha, que deveriam durar nove gerações.

Esta lenda surgiu na época em que o patriarcado começava a suplantar o matriarcado. Marcha , através deste mito nos mostra que era suprema, mágica e hábil, mas o mito indica que mesmo com todos estes atributos o Rei pode forçá-la a correr, demonstrando que a posição feminina já não era mais tão superior dentro da sociedade.

O período de fragilidade imposta pela deusa, só nos faz entender que o conhecimento feminino pode enfraquecer os homens. Este período imposto pela deusa, comop forma de castigo, seria equivalente ao período menstrual de todas as mulheres.

Macha  é símbolo da Soberania da Terra. Desrespeitar  a terra é desrespeitar a natureza criadora de toda a Vida.

Tamanho poder desta deusa pode ser atestado pelo pequeno ritual que ela praticava ao deitar-se com Crunniuc. Ela antes, caminhava em círculo no sentido horário ao redor do quarto para afastar qualquer mal. A Rainha Maeve também, antes de qualquer batalha, realizava um movimento circular no sentido horário para proteger-se dos maus augúrios.
Esta prática mágica é realizada em diversas tradições pagãs. Inclusive em algumas capelas cristãs e nascentes sagradas, devem ser primeiro circuladas para depois se obter o direito ao ingresso.


MEDITANDO COM MACHA

Macha chega até nossas vidas para nos afirmar que todas as mulheres são deusas. Todas nós somos pequenos pedaços de um grande ser: a Grande-Mãe. Ela, nas suas várias formas de manifestação, é o símbolo principal da própria representação do inconsciente. Uma boa parte deste planeta já busca o resgate desta sabedoria. Não estamos descobrindo nada novo, mas sim simplesmente revelando o que já se é.

Quando nos afastamos do sagrado, acabamos fatalmente relegando à um segundo plano à paz, o amor e a alegria. Quando nos esquecemos que a vida é sagrada, nós perdemos a conexão com a força planetária da vida e ficamos à sombra da nossa verdadeira natureza.
Seu maior símbolo de busca interior é o LABIRINTO. Caminhos que lhe conduzem para dentro de si mesma (o).


A deusa está viva!
A deusa está viva!
A deusa está viva!
Seja bem-vinda.

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Asas de Morcego

Embora o morcego não tivesse sido associado ao mito do vampiro até o século XIX, ele tem aparecido repetidamente desde os dias de Esopo e suas fábulas. Observadores antigos comentaram a semelhança de suas características com os seres humanos. Observaram, também, os morcegos amamentando seus rebentos pelos mamilos dos seios (1). Os conquistadores espanhóis interpretaram as novas variedades de morcegos, os hematófagos, que encontraram no México e na América do Sul, à luz tanto da imagem anterior de morcegos no folclore como das suas crenças tradicionais sobre vampiros humanos. Chamaram-nos não apenas de morcegos vampiros como também os descreveram como criaturas chupadoras, ao invés de "lambedoras de sangue" (segundo o historiador Alex Catarino foi D’Alembert quem sugeriu o nome "vampiro" para o morcego hematófago do novo mundo). De acordo com o folclorista Gordon Melton, "dois Europeus do século XVI, o Dr. Oliedo y Valdez (1526) e M. Giroalme Benzoni (1565), foram os primeiros a mencionar o morcego-vampiro em seus países". Benzoni, em sua "History of the New World", assinala: “Existem muitos bichos que mordem as pessoas durante a noite; eles estão em toda a costa do golfo de Pária e também em outras áreas, mas em nenhum outro lugar são tão pestilentos como nesta província de Nuevo Cartago, hoje Costa Rica; eles me pegaram em diversas regiões ao longo desta costa, mas especialmente em Nombre de Dios e enquanto eu estava dormindo eles morderam meus pés e meus dedões tão delicadamente que nem senti, mas pela manhã encontrei os lençóis e o colchão com tanto sangue que parecia ter eu sofrido um grave acidente”. (2)


       Uma nova ocorrência desse raro evento (pois os morcegos vampiros geralmente não gostam de sangue humano) foi assinalada vários séculos mais tarde quando Charles Waterton, autor de"Wanderings in South America", foi acordado por seu amigo, certa manhã, depois de dormir numa rede, reclamando que morcegos vampiros o tinham atacado. Waterton investigou o assunto: “Ao examinar seus pés, constatei que o vampiro tinha mordido seu dedão; havia uma ferida um pouco menor do que a provocada por um percevejo; o sangue ainda estava esvaindo. Enquanto o examinava, acho que o coloquei num estado de ânimo pior ainda ao observar que um cirurgião europeu não seria tão generoso a ponto de fazer fluir o sangue sem cobrar”. (3) Waterson teve uma atitude mais complacente para com os vampiros: “Muitas vezes gostaria de ter sido mordido por um vampiro (...) Não poderia haver dor, pois o paciente está sempre dormindo quando o vampiro está sugando-o; e pela perda de algumas gotas de sangue, isso não seria nada no final das contas. Dormi muitas noites com meus pés fora da rede para tentar esse cirurgião alado, esperando que estivesse lá; mas foi tudo em vão”. Em sua volta ao mundo no decorrer da década de 1880, Charles Darwin (4) também observou o morcego vampiro se alimentando e escreveu o primeiro relato “científico” sobre o assunto que foi publicado em 1890 (5).

           Morcego é o nome comum dos mamíferos da ordem dos Quirópteros que tem os membros anteriores dotados de patágio, o que lhes permitem utilizá-los como asas. Os morcegos já existem sobre a terra por mais de 55 milhões de anos. A maioria das quase mil espécies de morcegos existentes no mundo alimentam-se de frutas, folhas e insetos. Destas apenas três, devido a sua estrutura bucal e a seu aparelho digestivo simples, são hematófagos (do grego, hematos = sangue + fagos = comer), ou seja, alimentam-se exclusivamente de sangue de vertebrados, sendo os únicos cordados (filo Chordata) a terem tal especialização. São, por isso, reconhecidos pelos biólogos como vampiros.
        

         O habitat das três variedades exclusivamente chupadoras de sangue é a América Latina, do México até o norte da Argentina (sendo encontrados com mais facilidade nas zonas rurais, próximo à criação de gado). São pequenos, alcançam até 8 cm de comprimento e cerca de 35 cm de envergadura. Possuem um bom sentido de olfato e olhos grandes que lhes proporcionam ampla visão. Morcegos vampiros são ágeis e, ao contrário de outras espécies, podem andar, correr e pular. Assim, para diferenciar os vampiros dos morcegos silvestres, basta observar que os hematófagos tem grande capacidade de locomoção, apoiando-se nos polegares dos membros anteriores (8). Se um vampiro cair ou pousar no chão, ele pula e volta a voar, impulsionado pelos seus dedões avantajados; entretanto, se um morcego de outra espécie qualquer cair, terá de se arrastar e escalar para, em maiores alturas, lançar-se ao vôo novamente. Caso fique preso, ficará se debatendo até se cansar, podendo morrer. 

             À noite, quando as presas estão dormindo, os morcegos-vampiros os localizam com o olfato e a visão. Ao encontrarem e escolherem um alvo adequado, usam sua termorecepção para saberem onde há vasos sangüíneos à flor da pele. Então, dão uma mordida rápida, superficial e quase indolor (de forma oval) (10). Depois da “janta”, a área do estômago e dos intestinos parece inchar e eles descansam até conseguirem urinar o excesso de água do sangue, a fim de ficarem mais leves para voar de volta a seu habitat (11). Às vezes, pode passar algumas horas sem voar. São raros os ataques a seres humanos mas podem ocorrer, principalmente sobre circunstâncias excepcionais como atesta o biólogo Ivan Sazima, da Unicamp, que relatou algumas investidas contra garimpeiros, em áreas antes ocupadas por pastagens: “Sem o gado de que se alimentava, não é incomum o vampiro atacar homens” (12). Nesse caso o alvo dos incisivos afiados são as extremidades do corpo. Enquanto esteve escrevendo sobre a atividade dos morcegos vampiros na gruta de Los Sabinos, no México, o explorador Dadiel P. Mannix encontrou menções de ataques contra humanos. Isso deve ter-lhe interessado muito pois descreveu um quadro bastante detalhista:

"Embora geralmente se alimente com o sangue dos animais, também aproveita, por vezes, o das pessoas adormecidas. Em lugar de pousar sobre o corpo, expondo-se a ser descoberto, oculta-se entre os lençóis, eleva-se com cuidado sobre a ponta das asas e desliza cautelosamente em direção ao rosto do adormecido. Então escolhe um local onde os nervos escasseiem e abunde o sangue - por exemplo, os lóbulos das orelhas ou a ponta do nariz - e ferra uma ligeira mordidela. Se a vítima se mexe, o morcego retrocede com um salto, espera que ela torne a adormecer e repete o ataque em outra parte do corpo. Continua depois as suas experiências, até encontrar o ponto em que a pessoa adormecida não sente os seus afilados dentes. Abre então a boca de par em par e, com dois dentes, pratica uma incisão rápida e oblíqua. Os morcegos não sugam o sangue da ferida, lambem-na. Para isso, golpeiam as veias de forma a que delas saia um jorro contínuo de sangue, sugando-o até encherem tanto o estômago que mal podem voar". (13)

    Outro hábito bastante interessante dos morcegos-vampiros é usar o mesmo animal e a mesma ferida por várias noites seguidas, a fim de pouparem trabalho. Vampiros possuem pés acolchoados que lhes permitem aproximar-se da vítima sem acordá-la. São dotados de 20 dentes, incluindo os grandes incisivos ou “presas” que são curvos e agudos. É interessante notar que os morcegos-vampiros possuem menos dentes do que outros morcegos, como os frugívoros, por exemplo. Sua dentição é adaptada para alimento líquido, não sendo necessários molares e pré-molares desenvolvidos. Os dentes incisivos são muito afiados, assim como os caninos, de modo a facilitarem a mordida. Não mordem veias ou artérias. O corte, feito com os incisivos superiores, possui o tamanho de 0,5 por 1 cm e, no máximo, 3 mm de profundidade. Normalmente, um vampiro adulto consome aproximadamente 15 ml de sangue que corresponde a cerca de 40% de seu peso pré alimentar; mas a ferida pode sangrar por um tempo, devido à uma anticoagulante presente em sua saliva. Assim, a vítima pode perder até 200 ml de sangue enquanto eles usam a língua dobrada em forma de tubo para lamberem o sangue até se saciarem.
Os hábitos do morcego-vampiro são bem diabólicos; nos grupos muito numerosos se alimentam uns dos outros. Suas tendências canibais se dirigem aos exemplares mais velhos". (14) Os morcegos têm, em média, um filhote por ano. Durante o vôo, estes ficam dependurados nas tetas da mãe por meio de dentes de leite em forma de gancho. Os biólogos sabem hoje que um filhote de vampiro cuja mãe tenha morrido é imediatamente adotado por outra fêmea, coisa rara entre as espécies animais. “Às vezes são vampiras virgens que se ocupam do pequeno órfão, criando inclusive leite para amamentá-lo”, diz Ivan Sazima (15). Segundo o biólogo Marco Aurélio Ribeiro, "outra curiosidade quanto aos vampiros é sua estrutura social muito sofisticada em relação a outros morcegos. As interações dentro de colônias são complexas, havendo fenômenos muito interessantes como a troca de alimento entre fêmeas, por exemplo, fêmeas que não conseguiram se alimentar em uma determinada noite recebem sangue regurgitado por outras mais afortunadas" (16).

                   Sabemos que a religião nativa de diversas partes da América pré-colombiana tendia a divinizar e temer os morcegos vampiros (figuras de homens-morcego eram quase sempre associadas à decapitação e ao derramamento de sangue): "O morcego foi, muitas vezes, adorado como entidade divina: Era o deus supremo de índios americanos da costa do Pacífico. Eles o chamavam de Chamalkan. O poderoso deus-morcego de Samoa invariavelmente liderava o grupo, quando se marchava para a guerra"; "Nas lendas de muitos índios americanos da região do Norte do país, o morcego aprece na surpreendente situação de herói galante, defensor desprendido da humanidade em crise".

              Na mitologia dos maias, os morcegos fazem parte dos habitantes  misteriosos do mundo subterrâneo (22). Sobre isto, Eduard Seler informa: "Entre os maias, o morcego é uma das divindades que encarnam as forças subterrâneas. No Popol Vuh, está dito que a casa do morcego é uma das regiões subterrâneas que é preciso atravessar para alcançar o país da morte. O morcego é o senhor do fogo. É destruidor de vida, devorador de luz, e aparece, portanto, como um substituto das grandes divindades ctonianas: o Jaguar e o Crocodilo. Entre os mexicanos é igualmente divindade de morte; associam-no ao ponto cardeal Norte e, muitas vezes, representam-no combinado com uma mandíbula aberta que, outras vezes, é substituída por uma faca sacrifical".


          Segundo Gordon Melton, "relatos de vampiros no México podem ser rastreados até os maias, cujo território se localizava no que é hoje a Guatemala, mas que alcançava ao norte a Península Yucatan e a parte sul do México atual. Este era o território dos morcegos vampiros, que foram incorporados à mitologia dos maias. Camazotz, o feroz deus das cavernas do submundo maia, era conhecido pela sua aparição no Popul Vuh e suas representações na arte maia. No Popul Vuh, dois irmãos entram no submundo para vingar a morte do pai. Para realizar esta tarefa, precisam passar por uma série de obstáculos, um dos quais era a Casa dos Morcegos. São atacados inicialmente por uma horda de morcegos e depois pelo próprio Camazotz. Camazotz era retratado como um homem-morcego de nariz afiado, grandes dentes e patas. Num determinado momento, um dos irmãos enfia a cabeça para fora de seu esconderijo e Camazotz rapidamente o decapita. A cabeça é então usada como a bola num jogo (típico da cultura maia). O irmão decapitado recebe uma cabeça substituta e os irmãos, no final, jogam e ganham. Camazotz, com seu nariz afiado, grandes dentes e patas era uma figura popularmente temida entre os mais e numerosas representações aparecem na arte desse povo. Camazotz servia a diversos propósitos. Era essencial para o mito agrícola básico constituído em torno do ciclo de plantação de milho. Em sua descida, levava a morte aos grãos de milho quando as sementes eram colocadas na terra, um passo necessário para proporcionar seu renascimento nas colheitas. Era também temido, sedento de sangue e deus das cavernas. As pessoas evitavam passar pelos lugares que acreditavam ser sua morada". (24)

            Ao contrário dos Maias, a atitude dos Apinajés (jê), do Alto Tocantins, diante dos “homens-morcego” decaptadores de índios não foi nada contemplativa. Eles os interpretaram como inimigos, uma tribo rival de Cupendipes (indígenas de asas que os Apinajés diziam existir no Alto Tocantins), que, apesar dos atributos inumanos não lhes pareceram nada divinos ou dignos de sacrifícios. Carlos Estêvam de Oliveira registrou a tradição ouvida de indígenas Apinajés: "Antigamente existiu no Alto Tocantins uma estranha nação de índios possuidores de asas e que só andavam à noite, voando como os morcegos. Eram conhecidos por Cupendipes e habitavam em um morro, dentro de uma caverna. Quando voavam, conduziam os machados de lua, com os quais degolavam as pessoas e os animais. Certa vez, os Apinajés, reunindo os guerreiros de dez aldeias, foram atacá-los. Chegando ao morro, taparam as entradas da caverna com palhas secas, incendiando-as em seguida. Nesse ataque morreu um velho Cupendipe, ficando preso um menino que, não tendo ainda asas, não pode fugir. A fim de pegá-lo, os Apinajés entraram na caverna. Depois de prolongada busca, batendo com longas varas por todos os lugares, encontraram-no suspenso em um canto do teto, como se fosse um morcego. Os Apinajés, desejando criá-lo, levaram-no para a aldeia. Não conseguiram, porém, o seu intento. Sempre chorando, o pequeno Cupendipe recusava toda alimentação que não fosse o milho e não se deitava para dormir. Os Apinajés lembravam-se então da posição em que o haviam encontrado e fincaram no chão duas forquilhas, atravessando nelas uma vara. Nesta é que ele, pendurado pelos pés, dormia um pouco. Afinal, alguns dias depois de haver chegado à aldeia, morreu. No assalto à gruta dos Cupendipes, os Apinajés arrecadaram grande número de machados de lua (25) e inúmeros enfeites". (26) Agora, levando-se em consideração a existência real de grandes morcegos capazes de andar que, talvez, atacassem índios em época de fome, vemos que esta lenda poderia ser inspirada num relato passado de geração em geração sobre a destruição de uma colônia de Desmodus Draculares no Alto Tocantins. Estes, mais tarde, teriam sido humanizados num processo de antropomorfização.

Histórias de "Índios-Morcego", guardiães das cavernas da Montanha do Roncador, em Mato Grosso, também foram relatadas por um americano, Carl Huni: "A entrada das cavernas é guardada pelos índios morcegos, que são de pele escura e de pequeno porte, mas de grande força física. Seu sentido do olfato é mais desenvolvido do que o dos melhores cães de caça. Mesmo se eles o aprovem e lhe deixem entrar nas cavernas, receio que estará perdido para o mundo presente, porque guardam o segredo muito cuidadosamente e não podem permitir que aqueles que entram possam sair. Os índios morcegos vivem em cavernas e saem à noite para a floresta circunvizinha, mas não tem contato com os moradores de baixo, habitando uma cidade subterrânea na qual formam uma comunidade auto-suficiente, com uma população considerável. (...) Quando estive no Brasil ouvi muito sobre as cavernas sob a Terra e cidades subterrâneas. Elas estão (...) próximas do rio Araguaia, que desemboca no Amazonas (...) no sopé de uma cadeia de montanhas tremendamente comprida chamada Roncador. (...) Ouvi dizer que os índios morcegos guardam zelosamente a entrada dos túneis. (...) Sei que uma boa parte dos imigrantes que ajudou na revolta do General Isidoro Dias Lopes, em 1924, desapareceu nestas montanhas e nunca mais foi vista novamente. Foi sob o Governo do Dr. Bernardes, que bombardeou São Paulo durante quatro semanas. Finalmente fizeram uma trégua de três dias e permitiram que 4.000 praças, que eram principalmente alemães e húngaros, saíssem da cidade. Cerca de 3.000 deles foram para o Acre, no noroeste do Brasil e cerca de 1.000 desapareceram nas cavernas. Ouvi a história muitas vezes. Se me lembro bem do local onde desapareceram foi na extremidade sul da Ilha do Bananal (perto das Montanhas do Roncador)". O Dicionário de Símbolos prossegue relatando sobre as crenças correlatas de outros povos sul-americanos: "(O morcego) parece ter a mesma função entre os índios tupis-guaranis do Brasil; para os tupinambás, o fim do mundo será precedido pela desaparição do Sol, devorado por um morcego - Claude d’ Abbeville, citado por Mett. Os maias fazem do morcego um emblema da morte, denominando-o aquele que arranca as cabeças; representam-no com olhos de morto.

Para os índios zunis (Pueblo), os morcegos são anunciadores da chuva. Em um mito dos índios chamis, aparentados com o grupo choko (da cordilheira dos Andes colombianos, vertente do Pacífico), o herói mítico Aribada mata o morcego Inka (o vampiro), a fim de assenhorear-se de seu poder de adormecer suas vítimas. Efetivamente, diz-se que o vampiro, quando quer morder um homem adormecido (geralmente entre os dedos do pé) para sugar-lhe o sangue sem despertá-lo, bate as asas sem parar. Aribada, tendo conseguido apoderar-se desse poder, costuma entrar durante a noite onde houver mulheres adormecidas, e por-se a agitar dois lenços - um branco e o outro vermelho - para poder abusar delas sem que o percebam". (29)

Depois da colonização pelos brancos, da introdução do cristianismo e da introdução de escravos negros, ocorreram acréscimos e modificações nas crenças das Américas, que passaram a assemelhar-se cada vez mais com as superstições européias: "Espíritos malignos, em forma de morcegos, segundo se acreditava, podiam entrar em nosso corpo: e só era possível expulsá-los com a ação de exorcistas consagrados. Os curandeiros-feiticeiros da Nigéria, que são grandes cultores dessa arte, habilmente retiram morcegos e sapos pela boca do paciente, por acaso atacado por esses males. Entre os negros dos Estados sulinos dos Estados Unidos, maus espíritos são arrancados do corpo humano e injetados no corpo dos morcegos, que fogem para o vale das sombras com sua carga macabra.

Na obra Remaines, de Denis Grandville, há uma anedota que descreve o seguinte: Um cirurgião, um assistente e um padre atendem um paciente, profundamente atacado de melancolia. Enquanto o padre reza, o cirurgião faz uma pequena incisão no lado do paciente e, ao mesmo tempo, o assistente liberta o morcego, que havia trazido numa caixa escondida. O paciente acredita que o mau espírito foi arrancado de seu corpo e sara. No Brasil, essa anedota tem um continuação: 'Meses mais tarde, o cirurgião explica ao paciente que tudo fora uma encenação, porque notaram que seu mal era psíquico e não físico'. Aí o paciente adoece novamente, dizendo: 'Por isso é que eu ainda sinto o morcego voar dentro de mim'". (30)

"Os caboclos brasileiros sabem como pegar morcegos: finca uma fina vara de bambu no chão e a agitam freneticamente. A parte de cima da vara produz ruídos muito agudos, alguns dos quais inaudíveis ao ouvido humano. O morcego recebe os sinais e voa na direção da vara: bate e geralmente morre". (31) Há uma superstição popular muito difundida no Brasil que diz que o morcego seria “um rato velho que se transforma em voador”. Eu cheguei a conhecer uma senhora negra que trabalhava como servente num colégio do Rio de Janeiro em 1993. Ela me contou várias vezes que, quando era criança, ouvira tal história de seus parentes mais velhos. Desejando ver pessoalmente a transformação ela capturou um rato adulto e colocou-o dentro de um latão. Passou a alimentar o bicho regularmente e, segundo ela, depois de um tempo o roedor começou a enrugar e criar membranas, coisa que lhe pareceu muito repulsiva. Então ela soltou-o temendo que a transformação se completasse e o bicho saísse voando pela casa. Tentei explicar-lhe que ratos e morcegos são duas espécies distintas, que se reproduzem separadamente; que não eram um mesmo animal que, assim como as lagartas que viram borboletas, sofrem uma transformação radical pelo meio de suas vidas. E também propus que seu rato deveria ter emagrecido e ficado flácido devido a má alimentação. Mas nada disso adiantou: Ela viu. Nem fotos de bebês morcego nem ratos mortos de velhice puderam tirar aquela certeza de sua mente.

BERNARD, Raymond. A Terra Oca. Record. 12ª ed. 1999
BROOKESMITH, Peter (org.) Seres Fantásticos e Misteriosos. Círculo do Livro, 1984.
MELTON, Gordon. O Livro dos Vampiros. Ed. Makron.
OLIVEIRA, Carlos Estêvam de. Os Apinajés do Alto Tocantins, 91-92, Boletim do Museu Nacional, VI, n.2, junho de 1930, Rio de Janeiro.

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