segunda-feira, 9 de março de 2015

Devagar


Lembro-me de um de meus últimos trabalhos, onde escutava uma voz suave que dizia... Devagar querido, de vagar... Para quê tens tanta pressa, se mal sabes onde quer chegar.

O mundo só perde a graça para aquele que procura encontrar alguma graça no mundo. E que graça há onde a graça mascara a trapaça? Irônico é, em tua nefasta incredulidade, procurar algo que sabes não existir... Sofrendo por um motivo já conhecido por tua mágoa doída, motivo já flagrado tantas vezes na atenção intuitiva. Toda graça que há no



mundo está a se exibir embaixo do seu nariz! Discreta em sua intensidade, indiferente ao que procura, caçoando da vossa prepoência imbecilizada.  


Não se faz como tu queres, mas sim como se faria se tu nada fizesses, pois então o que seria a graça se não o que se desembaraça delicado ao balanço cuidadoso como o do galho ao vento? Pois, para que complicar o que já é tão difícil de tricotar, tentando traçar ou tracejar uma linha no invisível? Que servidão teria a ti o poder e a potencialidade se não houvesse o que se coloca abaixo os alçando em crescente staccato? Pondere! Do outro lado da moeda sempre há outro lado diferente ao vosso fardo, mas tão igual apenas por ser lado, e que, curiosamente, no conto sátiro da vida cotidiana, circunda o mesmo aro num giro lado a lado.

Tornar um até breve num continuum borbulhante, caudaloso e extasiante simplesmente para se refugiar do resmungo absurdo deste mundo reclamão. Em toda via e estrada há uma contramão, em toda mão dada há uma contra-via, uma solução esperando a água quente para escoar diluída pelo ralo de sua pia; Em vossa paspalhada, um beijo suplicante do destino falsário que tropeça em si mesmo... Tão errante quanto o berro de um camelo! Tão camelo quanto um burro insistente... E no final, quem poderia ter dito que nos encontraríamos ali, esperando que somente o aqui houvesse? Curioso? Não sei! Prefiro pensar como um golpe despretensioso.

A malícia apenas se empresta, não se toma, não se cria... Aprecia-se, se detesta, sinuosa vaga pelo ar esperando a hora certa, oportuna para lhe dizer: O que há com você? Salpicando intenções em vossa sopa de letrinhas cuidadosamente arrumadas. E a resposta? Dou-te a que você precisar! Pois, mais não vale um belo robô programado aguardando pelo tempo configurado do que um pensamento vago largado no cume de um monte tombado? Voa passarinho, voa! Leva o recado atado na pata à fonte em que pousar e matar a tua sede, pergunta se é de lá que vem a vida, amarra a resposta e esquece a volta, pois aqui ninguém quer ser vivente.




Meu irmão tranca o portão com minha mão, puxando o trinco enferrujado, de formato deformado pelo gume cego de um ferreiro maltratado, e mesmo assim, apesar dos pesares confesso! Sempre estive preso, mas nunca me senti prisioneiro! Afogando-me solto no salgado do mar sinto o doce da água que bebo! Arrasto daqui, arrasto de lá, que seja a bola, o tronco ou a cela, tanto faz... Arrasto o que tiver para arrastar. Como o tamboreamento no ritmo do compasso composto de um surdo, tão grave, grande, notável e audível... Apesar de estar mudo.

Devagar se fizeram todas as coisas já feitas, devagar encerramos, re-editamos e re-exibimos as novelas escritas na areia do mundo... E divagando os poetas da incerteza prosseguem corrigindo no texto os acentos que mudam o sentido de tudo.

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